O Messias e as Tribos Perdidas Parte I

 

Rosh Baruch Ben Avraham

 

O Judaísmo sempre viu na restauração das tribos perdidas um sinal identificador do Messias, uma condição sem a qual nenhum homem pode ser proclamado como tal. Estudassem os cristãos todas as profecias relativas ao Messias e descobririam que a maior parte dos crentes são israelitas. Estudassem melhor os judeus o exílio das tribos perdidas e descobririam que Yeshua é de fato o Messias prometido que trouxe Israel de volta a Adonay.

 

Caixa de texto:  Afinal o que faz com que tantas centenas de milhões de “gentios” hoje leiam a Bíblia, tenham se voltado de seus ídolos mudos para contemplar o Elohim de Israel? O que faz com que tantos milhares de “gentios” busquem hoje aprender hebraico, guardar o shabat, celebrar as festas bíblicas, amar o Estado de Israel orando por ele  protegendo sua existência?  

 

         Infelizmente os crentes tanto judeus como não judeus tem trabalhado na contramão da história. Os cristãos apesar de lerem que Yeshua foi enviado “somente às ovelhas perdidas da casa de Israel,” (Matytyahu/Mt 15:24)  ensinam que ele veio de fato salvar os judeus, mas que estes não quiseram ser salvos e então ele decidiu salvar os gentios.

 

         Os judeus por seu turno dizem que uma vez que Yeshua não acabou com o exílio das dez tribos, mas pelo contrário depois de seu nascimento também as duas tribos de Yehudah e Binyamin (Judá e Benjamim) foram levadas ao cativeiro isso prova que ele não é o Messias prometido. Em ambos os casos prevalece, porém a ignorância.

 

O judaísmo rabínico bem como o judaísmo caraita afirma que o Servo mencionado em Yeshayahú é Israel e não o Messias e que os crentes messiânicos ignoram essa realidade para fazerem de Yeshua o Servo Sofredor. Isso é enganoso, e só pode ser crido por quem nunca leu todo o Sefer Yeshayahú, por quem voluntariamente ignora seu conteúdo, ou por quem teve seus olhos cegados para que não lhes resplandeça a luz, que é o Caso da Massa da Casa de Yehudáh.

Na verdade o Eterno se refere a cinco servos diferentes. O primeiro deles é o evediy Yeshayahú ou  meu servo Yeshayahú (Yeshayahú/Isaías 20:3).  O segundo mencionado é o  Evediy l´Eliaquim Ben Hilquiahu ou “meu servo Eliaquim filho de Hilquias. (22:20). O terceiro é o David Evediy ou Meu servo David (37:55). O quarto é o Israel evediy ou meu servo Israel (40:8) O quinto é chamado simplesmente de evediy ou meu servo, (42:1) e não se refere a Israel.

Isso se desprende claramente de sua própria missão.  “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem se compraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele. Ele trará justiça às nações. ... as ilhas aguardarão a sua lei. ... Eu Yah te chamei em justiça; tomei-te pela mão, e te guardei; e te dei por pacto ao povo, e para luz das nações.” Yeshayahú/Is 42:1-6. O servo em quem a alma de Adonay se compraz não é Israel por que Israel é uma nação pecadora que lhe não deu o prazer da obediência Adonay (1:1-6).

O servo que trás justiça as nações não pode ser Israel pois esse pelas suas maldades foi vendido (50:1). Por último o servo não pode ser Israel, por que o próprio servo, foi dado como aliança ao povo (de Israel) e como luz dos gentios. Finalmente deve ser claro que o servo é o Maschiach a partir do próprio texto de Yeshayahú 49 que declara que ele deve restaurar as tribos de Yakov, tornar a trazer os preservados de Israel e ser luz para as nações. Ora, Israel não pode restaurar-se a si mesmo. O Servo deve proceder com prudência, o que contrasta com Israel que é o servo cego (incapaz de ver a luz) e surdo (incapaz de ouvir a verdade) como se vê em Yeshayahú/Is 42:19. Já o servo que trará luz as nações é o tsadik avediy ou Meu servo justo, um claro contraste com Israel como já foi visto. Logo uma referência direta a Yeshua, o Servo e Salvador de Israel.

 

Os cristãos deveriam saber que a missão do Servo de Adonay é primeiramente restaurar as tribos de Yakov, logo trazer os desterrados de Israel e só então se voltar para a massa dos gentios para quem foi constituído luz. Yeshua não pode em momento algum ir além de sua missão. As Escrituras em lugar algum dizem que Yeshua veio com a missão de salvar os judeus, mas não podendo cumprir sua missão por que o coração deles era mais duro que seu desejo, se voltou então para salvar os gentios que tinham melhor coração. Isso é absurdo e contraria tudo o que os profetas declararam acerca do Servo de Adonay:

 

“Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te porei para luz das nações, para seres a minha salvação até a extremidade da terra.” Yeshayahú/IS 49:2.

 

Ai está a missão do servo enviado pelo Pai com um poder extraordinário.  Ele veio para cumprir não a sua limitada vontade, mas a ilimitada vontade daquele que o enviou. Ele deve restaurar as tribos de Yakov. Portanto, nada poderia ser tão tonto como afirmar que ser descendente do povo eleito, que possuir o DNA Avraham, Ytzchak e Yakov e que ter como pai a um dos doze patriarcas é coisa insignificante. Yeshua nasceu da semente de Avraham para salvar a semente de Avraham.

 

“Pois, na verdade, não presta auxílio aos anjos, mas sim à descendência de Avraham.” Ivrim/Hb 2:16.

 

Ainda que como seu Pai Avraham acolha em seu seio tanto os nascidos em sua casa como aos que comprou por seu sangue, sua missão prioritária é salvar Israel.

 

Claro que através do profeta foi dito que restaurar as tribos de Israel era uma missão pequena, que ele deveria fazer uma ainda maior que era trazer de volta os desterrados de Yakov. E então, para suplantar tudo isso ele viria a se tornar luz para os gentios. Nada faz supor que o Messias não dando conta de cumprir o que era pouco pudesse cumprir o que era muito. Se ele não desse conta de sua missão, não seria o Ungido de Adonay. Logo a premissa equivocada de que Yeshua não pode salvar seu próprio povo e então partiu para salvar os gentios é enganosa do princípio ao fim. Ele mesmo negou tal coisa quando disse:

 

“Depois de assim falar, Yeshua, levantando os olhos ao céu, disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o Filho te glorifique; assim como lhe deste autoridade sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos aqueles que lhe tens dado. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Elohim verdadeiro, e a Yeshua há Maschiach, aquele que tu enviaste. Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer. Agora, pois, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus, e tu mos deste; e guardaram a tua palavra.” Yochanan/Jo 17:1-6.

Yeshua antes de iniciar a sua missão recebeu autoridade sobre toda a carne para dar vida eterna a todos aqueles que o Pai lhe deu. Ele louva a seu pai ao proclamar que cumpriu tão plena e cabalmente sua missão que aqueles do mundo que lhe haviam sido dados viram o nome do Pai e guardaram a sua palavra. Logo não é verdade que Yeshua não tendo podido salvar seu próprio povo se dedicou a salvar os que não eram seu povo, ainda que o Israel desterrado viesse a ser chamado de não povo, isso se devia apenas ao fato de haver perdido não só sua terra, mas também sua identidade.

De uma vez por todas deveria ser claro que o Messias salvar gentios em lugar de judeus seria um desvio grave de sua missão, um fracasso em seu objetivo pessoal e em ultima instância uma derrota no próprio propósito daquele que o enviou. Yeshua só podia salvar os gentios, como de fato o fez, por que essa era sua missão adicional, não por que se tornou mais fácil fazer essa obra que salvar o seu próprio povo.

Ora um soldado não pode depois de fracassar na missão para a qual foi enviado e criar uma missão para reparar seu próprio fracasso. Da mesma forma, um pai que se lança em águas agitadas para salvar seu filho jamais voltaria contente para a margem com outra criança enquanto filho é arrastado para o abismo pelas ondas encapeladas. Nossa resposta aos que imaginam que Yeshua foi enviado para fazer uma coisa e acabou se contentando em fazer outra não pode ser outra senão a sua própria palavra:

“Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer.” Yochanan/Jo 17:4.

Portanto fora com a infâmia de que o Messias não dando conta de cumprir a missão de salvar a seus próprios irmãos, filhos de Avraham como ele, criou para si outra missão salvando gentios em seu lugar. Que fique pois claro que gentios não foram salvos no lugar de Israel mas junto com Israel. Desde longa data o Maschiach era esperado para salvar a Israel e então revelar sua luz aos gentios.

A redenção envolve dois aspectos de uma mesma obra, primeiro o resgate de Israel e logo a salvação dos gentios. Mas infelizmente a agenda de Roma faz com que muitos cristãos raciocinem assim: “O Messias veio na verdade para salvar os judeus que eram seu próprio povo, mas eles não o receberam e ele assegura o triunfo de sua missão salvando os que não eram seu povo, os gentios.”

Roma tão sutil como enganosa empurrou esse conceito goela abaixo dos crentes supondo que inclusive essa seja uma cândida revelação das Escrituras. Como a maioria das igrejas tem ainda fortes elos teológicos amarrados à Sé de Roma eu gostaria de corrigir esse equívoco antes de prosseguir. É importante ressaltar que os grandes reformadores e seus colaboradores Martin Lutero (1483-1546) e Felipe Melanchton (1497-1560), Ulrico Zuinglio (1484-1531) e João Oecolampadius (1482-1531), João Calvino (1509-1564) e Theodore de Beza (1519-1605) tiveram êxito em conduzir o povo para fora das catedrais, para um lugar onde pudessem se sentir salvos por graça e livres da idolatria, mas não em conduzi-los para fora do romanismo.

Sua missão designada pelo Todo-Poderoso não era a de levar o povo de volta para suas raízes, mas para a Bíblia como passo preparatório para a Reforma Radical que se supõe ter começado com Menno Simons (1496-1561), e que deveria avançar não só com o batismo de adultos, mas com o batismo por imersão como mais tarde propuseram os anabatistas, com a guarda do shabat como propuseram os batistas do sétimo Dia, com a celebração das festas como propôs a Igreja de Deus Universal e finalmente com a adoção de uma vida plenamente israelita como propõe o movimento das Duas Casas. 

Reconhecemos que no que diz respeito à restauração de Israel a luz é progressiva e que cada progresso deve ser saudado, mas isso nos leva a admitir que os reformadores eram aquilo que proclamaram, católicos renovados. Uma reforma é sempre a melhora de alguma coisa deteriorada, e os reformadores modificaram a Igreja Cristã com a adição de alguns elementos originais, mas não a restauraram.

 

Embora os reformadores admitissem que haviam sido  feitas promessas incondicionais a Israel eles permaneceram com os mesmos conceitos de Roma de que a Igreja Cristã substituiu Israel. Lutero cria, porém que antes da volta de Yeshua, Israel se converterá uma nação cristã, uma vez que o próprio Maschiach profetizou que os filhos de Yerushalaim não o veriam mais até que dissessem:”Bendito o que vem em nome do Senhor.” Matytyahú/Mt 23:39 Esta declaração era vista por ele como sinal positivo dessa conversão final ao cristianismo pregado na época.

 

“Como disse nosso Senhor (Mt 23:39): “Declaro-vos, pois, que desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor.`- portanto é certo que, quando Jesus vier, o que será visível a todo o mundo, como o raio sai do oriente e brilha no ocidente, a quem todos os olhos, mesmo daqueles que o transpassaram e todas as famílias da terra verão (AP 1:7, Zac 12:10) -, que os judeus terão sido convertidos e se tornarão numa nação cristã... E além do mais, quando Pedro (at 3:19-21) exorta ao arrependimento e à conversão até aos tempos do refrigério vindos da presença do Senhor, assim parece-me fora de toda a dúvida que a conversão de Israel há de preceder a segunda vinda de Cristo.” Martin Luther in Lehre Von letzien Dingen, PP 71,72 citado por Charles Hodge na sua Teologia Sistemática, a Conversão dos Judeus, Editora Hagnos, São Paulo, 2001. página 1614.

 

Já, Calvino, o reformador francês de Genebra repudiava essa interpretação dizendo que em Matytyahú Yeshua se referiu não à salvação dos habitantes de Yerushalaim que o haviam rejeitado, mas à sua condenação final junto com todos os que recusam sua graça. E num desvio de foco do próprio texto ele inclui ali os cristãos que  não creem na doutrina do Maschiach, os hipócritas.

 

"Em resumo, ele declara que Ele não virá a eles até que, tremendo à vista de Sua terrível majestade, devem exclamar: - quando for tarde demais - que verdadeiramente Ele é o Filho de Deus! E esta ameaça é dirigida todos os inimigos do Evangelho -mais especialmente para aqueles que falsamente professam Seu nome, enquanto rejeitam Sua doutrina ...” João Calvino, Comentário a Mateus 28:39.

 

No entanto, apesar de errar grosseiramente na interpretação de Mateus 23:39, negando que ali esteja configurada uma promessa e entendendo a profecia como um juízo, Calvino parece ir além de Lutero ao admitir com base em Romanos 11 que Israel se converterá de tal sorte que terá proeminência sobre outros povos quando se estabeleça o reino do Messias.

 

Muitos entendem isto como se referindo especificamente ao povo judeu, como se Paulo houvera dito que a religião lhes seria novamente restaurada como nos tempos de outrora. Todavia, entendo a palavra Israel para incluir e abranger todo o povo de Deus, da seguinte maneira: “Quando os gentios tiverem entrado, os judeus ao mesmo tempo, se converterão de sua apostasia à obediência da fé. A salvação de todo o Israel de Deus, o qual deve ser compreendido de ambos,( judeus e gentios), será então completada, mas isso se dará de tal forma que os judeus, o primogênito da família de Deus, ocupem o lugar de proeminência.” João Calvino, Romanos, Edições Paracletos, São Bernardo do Campo, SP – Brasil, 1997, pág, 409.

Ele se baseia na firme declaração: “Não quero irmãos que ignoreis esse mistério que o endurecimento veio em parte a Israel até que o tempo dos gentios se complete, e logo todo o Israel será salvo.” Romanos 11:25-26

 

Erra, porém Calvino ao ensinar que todo o Israel ali mencionado se refere não só a Israel, mas também aos gentios, bem como ao negar que o judaísmo, ou melhor, que o israelismo alguma vez será restaurado. Isso é em parte decorrente dos mesmos conceitos romanos de que Israel perdeu sua posição como nação, que foi substituído por um Israel espiritual chamado Igreja Cristã. Este conceito supõe sua base nas Escrituras e por isso vamos analisá-lo a seguir em O Messias e as Tribos Perdidas Parte II