O ינע רשעמ Maassser Ani – O Dízimo dos Pobres

 

Rosh Baruch Ben Avraham

 

A Igreja de Deus Universal foi um dos maiores fenômenos de arrecadação de dízimos proporcionais de todos os tempos. Segundo Gerald Flurry, Pastor Presidente da Igreja de Deus Filadélfia, uma das ramificações fiéis das IDU`s surgidas a partir do movimento de apostasia instaurado após a morte de Herbert Armstrong os 88.455 membros que a igreja tinha em 1.987 doaram 192 Milhões de dólares. Estima-se que nos cinco anos que precederam à grande apostasia conduzida pelo Pastor Geral Joseph Tkach (1927-1995) substituto de Herbert Armstrong cerca de 1 bilhão de dólares entraram nas contas da Igreja de Deus Universal. Foram 201 milhões em 1988, 214 milhões em 1989 e 222 milhões em 1990.

Nada menos que 607 mil dólares entraram por dia nos cofres da Igreja de Deus Universal no último ano antes da Grande Dispersão, como a apostasia é chamada pelos que se mantiveram fieis à doutrina de seu fundador. Isso lhe permitia não só manter seus templos e ministros, sua suntuosa sede e seus programas educacionais como também a distribuição gratuita de quase 10 milhões de revistas mensais com elevada qualidade gráfica e em oito línguas diferentes, seus programas sonoros em 398 estações de rádio e seus programas de televisão em dezenas de canais através do mundo. Cada membro da igreja, então presente em 80 países, dizimou ou ofertou em 1988 uma média de 2.170 dólares, isso quando a renda per capta americana era de apenas 20 mil dólares. Como podia a Igreja de Deus Universal manter arrecadações tão altas?

 

         Herbert Armstrong, primeiro e as igrejas que se consideram suas continuadoras depois como a Igreja de Deus Filadélfia de Gerald Flurry e Igreja de Deus Restaurada de David C. Pack bem como outras da família perseveram em ensinar a seus fiéis a dizimarem três vezes. Isso em parte explica por que a Igreja de Deus Filadélfia com apenas 5.500 membros teve uma arrecadação de 20,6 milhões de dólares em 2010, uma média de 3.745 dólares por membro.

 

         Armstrong foi de parecer que a restauração de toda a verdade passava por trazer de volta aos dias de hoje a prática de dizimar trienalmente para os pobres, as viúvas e os órfãos. Bem, se existe um ponto onde o judaísmo tradicional dos rabinos se encontrou com a igreja cristã foi justamente esse. Embora o judaísmo tradicional acredite que na atualidade tanto o Maasser Risshon (primeiro dízimo) como o Maasser Sheni (segundo dízimo) não podem ser dados enquanto o templo estiver em ruínas e pague seus rabinos e sustente suas congregações por meio de tsedakah, eles acreditam que o maasser ani, o dízimo dos pobres está de pé e deve ser doado regularmente. Obviamente já falamos que não precisamos recorrer ao maasser sheni para o sustendo do ministério. Nosso sacerdócio é o de Melktsedek a quem Avraham abençoou.

         No entanto esbarramos diante de outro tributo religioso que se junta ao masser rishon (Primeiro dízimo), ao maasser sheni (Ao segundo dízimo), à Terumah guedolah (oferta alçada), ao peidion há ben (resgate do primogênito), à tsedakah (caridade) e ao bikurim (primícias). A pergunta é o que fazemos com essa ordenança?

 

“Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que Yah teu Elohim te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem. Deuteronômio 14:28-29

 

         Se trata aqui de um dízimo doado irregularmente de acordo com o ciclo de sete anos que concluía com o ano sabático. Só que diferentemente do maasser sheni, o segundo dízimo, que era dado no primeiro, no segundo, no quarto, no quinto e no sétimo ano, o maasser ani, o dízimo dos pobres era dado no terceiro e no sexto ano. Isso resultava numa média menor, da ordem de 3,3%.

 

         Antes de prosseguirmos convém citar que o judaísmo rabínico entende que a prática de dizimar é uma faca encostada na garganta de nosso egoísmo. É importante ressaltar que os argumentos tecidos por cristãos de que o dízimo envolve apenas produtos do campo não tem a ver com o judaísmo. Este sempre entendeu que colheita e renda são frutos das bênçãos de Adonay. A propósito cito um comentário do judaísmo chassidico:

 

“Tudo o que possuímos é um empréstimo de D'us. Na realidade, tanto a colheita, como a renda monetária de cada indivíduo é um presente Divino. A Torá não quer que nos esqueçamos disto. Por isso, instituiu que um décimo da colheita, ou da renda, fosse doada. Este é um lembrete de que na realidade nenhum bem material é nossa propriedade eterna, e temos de usar o que temos agora para o bem. A Torá nos ordena dar um décimo de nossa renda líquida. É meritório dar 20% (Shulchán Aruch Yore Dea 249:1). (Beit Chabad, Ética e Sabedoria, Maasser, http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/maasser/home.html visita em 20 de março de 2012)

         Portanto não procede o conceito de que judaísmo não dizima e menos ainda que não dizima com dinheiro. O que o judaísmo rabínico fez foi fundir os preceitos ligados à Maasser. Uma vez que o Templo não está mais de pé e que o sacerdócio levítico não está em operação, eles não doam esse dízimo para a manutenção do ministério (rabinato) e de seus templos (sinagogas). Estas são sustentadas por tsedakáh ou ofertas voluntárias. Da mesma forma eles deixaram de separar o segundo dízimo destinado às festividades em Yerushalaim, celebrando as festas por meio de tsedakah. Mas para que não se tornassem egoístas durante o período que vivessem sem templo eles direcionaram o dízimo que dariam aos levitas para os pobres.

 

“Uma vez que não há mais pessoas da tribo de Levi trabalhando no Templo Sagrado, todo judeu tem a obrigação de dar um décimo de seu lucro para caridade e ajuda aos necessitados. Isto inclui desde comida para pobres, até bolsas de estudos e projetos e a qualquer indivíduo ou instituição beneficente de nossa escolha.” (Beit Chabad, Ética e Sabedoria, Maasser, página visitada em 20 de março de 2012 http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/maasser/home.html)

 

Observe que não se faz referência ao simples maasser sheni (dízimo para os pobres, ainda que eles o titulem assim. Eles mencionam uma substituição de deveres. Não há sacerdotes para receberem 10% da renda liquida de cada judeu em forma de maasser rishon, então toma-se esse dízimo e se destina aos mais pobres, seja para alimentá-los, vesti-los ou estudá-los.  Estes 10% são considerados dever sagrado, a doação meritória porém, é que atinge os 20% que eram usados durante a época do segundo templo. Portanto, é evidente que judeus religiosos são tão dizimistas como cristãos religiosos.

 

A diferença é o destino dos dízimos. Cristãos gentios e judeus e israelitas messiânicos entendem que devem dizimar para a pregação, para o sacerdócio messiânico que é o de Melktsedek, judeus não messiânicos entendem que tem de dizimar para os pobres. Cada um se arranjou como pode. Efraim dizimou para a pregação, com inegáveis frutos e Judá para os pobres.

Dito isso voltemos ao que nos prende agora, o maasser ani, que durante a época do templo os judeus deviam dar aos pobres  separando 10% de suas rendas trienalmente (média de 3,3% ao ano) e que hoje os judeus hoje decidiram aumentar para 10% ao ano a fim de não ficarem em falta com o Criador de quem se consideram sócios já que antes tinham de dar 10% anual para o templo, além dos 3,3% em média para os pobres.

 

Deve a congregação dizimar para os pobres como fazia a Igreja Universal separando 3,3% de sua renda além dos dízimos que destina ao sustento da congregação e do ministério? E em caso efetivo, deve esse dinheiro ser regido pela tesouraria da chavurah (grupo de estudo), da kehilah (igreja) ou da Beit a Sinagoga ou cada um deve gerir sua própria forma de fazer caridade?

 

 Acredito que caso uma organização decida, ambos os caminhos podem ser válidos. Se uma congregação dispuser de uma instituição de caridade, de apoio a moradores de rua, viciados em drogas, crianças desamparadas, apoio a missões estrangeiras em países pobres etc, ela pode decidir em assembleia que os membros acrescentem essas ofertas e que elas sejam geridas por uma comissão por ela nomeada. Mas essa não é uma obrigação. O membro também pode, como o judaísmo rabínico sugere, escolher qual família pobre ou que criança da própria congregação ele vai ajudar com os estudos ou coisa parecida. Naturalmente não vale escolher o próprio filho, pois um investimento em nossos filhos é em ultima análise um investimento em nós mesmos.

 

Lembre que o dízimo para os pobres era guardado em casa e não podia nem ser comido pelo dizimista e nem levado à porta da tenda da congregação. Quando chegava o terceiro ano os menos favorecidos eram chamados a comer dentro das portas daquele que havia recebido maiores bênçãos. Isso significava que ele podia, liberto da necessidade de comprar parte de sua alimentação melhorar suas condições de vida com a economia que esse dízimo dado pelo irmão mais próspero lhe proporcionava. O Terceiro ano era um ano de divisão das bênçãos.

O dízimo aqui referido era distribuído trienalmente em porções iguais entre viúvas, órfãos, estrangeiros e levitas. Por outro lado um dízimo dado trienalmente jamais sustentaria o ministério dos levitas, mas os manteria em condição de penúria nos dois anos que o precediam. Por causa disso o Eterno determinou um outro dízimo que deveria ser entregue regularmente a cada ano aos levitas, que por sua vez também dizimavam dele aos sacerdotes. Mas sobre ele já falamos acima.

 

 

Discutindo Sobre o Dízimo Para os Pobres

 

Trata-se de um dízimo acerca do qual pouco se discute na atualidade seja por que a igreja imagina que não tem mais obrigação para com os pobres por que esses são legalmente assistidos pelo Estado, ou seja, por uma razão completamente espúria, a suposição de que não deve haver pobres entre os crentes, pois pobreza será sempre sinal de maldição e desamparo por parte do Criador. Assim, a igreja sente-se livre para arrecadar montanhas de dinheiro, mesmo entre os mais pobres que são estimulados a dar sob a suposição de que se o fizerem poderão “encostar Deus na parede” dizendo:

 

“Deus não aceito essa pobreza para a minha vida”. Isso apesar de Yeshua dizer: “Sempre tereis convosco os pobres.” (Matytyahú/Mt 26.11). Ainda de acordo com essa visão, Elohim que prometeu dar a quem lhe pedir tratará de fazer com que a pessoa enriqueça arrancando de sua vida os demônios da pobreza.

 

Esta visão tem sido responsável pela formação de uma corrente de opinião que bem poderia ser chamada de teologia da avareza por que leva o povo a buscar avidamente os bens desse mundo e ver a ausência desses bens como sinal seguro de desaprovação do céu desprezando aqueles que estão destituídos de bens desse mundo. Como isso difere daquilo que o Maschiach falou e do que os talmidim de Yeshua ensinavam ao povo, a saber que a pobreza era uma parte do plano de Adonay para seu povo. 

“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam” (Mat.6.19,20)

 

“De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Elohim, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão”. (ITm 6.4-11)

 

Ao contrário do que ensina a doutrina perversa da prosperidade de que a pobreza foi criada por Satan e que quem empobrece está sob ação do maligno e debaixo de maldição as Escrituras dizem que “o rico e o pobre se encontram; a todos fez YHWH.” (Mishlei/Pv 22:2). Sabemos que dele procedem tanto a pobreza como a riqueza, e que é Adonay que faz enriquecer e também faz empobrecer exatamente como está escrito.

 

“O YHWH empobrece e enriquece; abaixa e também exalta.” (Shmuel Alef/1 Sm 2:7).

 

A Brit Chadashá lembra que assim como nada trouxemos quando chegamos a esse mundo, também nada levaremos, e que por isso mesmo devemos sempre ter em conta que nosso maior bem é o tesouro celestial da vida eterna e que o amor ao dinheiro é a raiz de todo o tipo de males, que o digam os falsos apóstolos.

 

“Porque nada trouxemos para este mundo, e nada podemos levar dele; tendo, porém, sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Os que querem ficar ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 Tm 6.7-10).

É claro que os crentes não precisam se conformar com a sua pobreza no sentido de nada fazerem ou de se entregarem à mendicância. Se o Eterno empobrece, mas também enriquece, estamos na liberdade de pedir que afaste de nós a pobreza, mas que fique bem claro é um pedido que fazemos a ele, um pedido que encerramos sempre com a frase: “seja feita a tua vontade.”

 

Além disso, devemos estar conscientes de que uma das razões pelas quais o Eterno empobrece a certas pessoas é prover o nosso caráter de instrumentos capazes de desenvolver o dom da caridade. Para isso a Torah prescreve um dízimo extra, que era dado trienalmente a fim de que os mais pobres da nação, juntamente com suas viúvas, órfãos e estrangeiros, e inclusive os levin (levitas) fossem auxiliados.