Maasser Sheni ינש רשעמ- O Segundo Dízimo (Para as Festas)

         Rosh Baruch Ben Avraham

        

         Outro dízimo mencionado na Torah é o ינש רשעמ Maasser Sheni, o Segundo Dízimo dedicado integralmente à celebração das festas bíblicas cujo produto era dedicado inteiramente ao serviço de Adonay. As pessoas podem dizer hoje: Mas que tenho eu com esse dízimo se não celebramos mais festas? Era de se perguntar então: Que temos com o dízimo para os levitas se não há levitas consagrados na igreja?

 

         A questão é simples, a Torah é espiritual. Ela foi preparada para que aprendamos a doar aos demais, mas antes de doar aos outros temos de aprender a doar a nós mesmos. A mensagem do Maasser Sheni é justamente essa, damos um segundo dízimo para nós mesmos, por que somos o Templo da Ruach há Kodesh, e onde nós estivermos este templo estará de pé.

 

         Assim, da mesma maneira como os crentes aprenderam a fazer da lei de dizimar para os levitas um método para abençoar a congregação e seus líderes sacerdotais que lês ministram a palavra, está no tempo dela aprender a reservar uma parte da sua renda para celebrar as festas de Adonay. Naturalmente que para isso precisarão conhecer as festas primeiro, não seja que inventem festas, ou o que é pior que celebrem festas que originalmente fora reservadas aos deuses das nações como Natal e Primeiro do Ano, por exemplo.

 

         Ora o segundo dízimo era uma reserva em produtos para que as pessoas pudessem estar preparadas para irem a Yerushalaim, cidade sagrada e centro de todo o turismo religioso de Israel. 

 

Certamente darás os dízimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo. E, perante Yah teu Elohim, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer a Yah teu Elohim todos os dias. E quando o caminho te for tão comprido que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher Yah teu Elohim para ali pôr o seu nome, quando Yah teu Elohim te tiver abençoado; então vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher Yah teu Elohim; e aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante Yah teu Elohim, e alegra-te, tu e a tua casa; porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo.” Devarim/Dt 14:22-27.

 

         Diferentemente do primeiro dízimo, que era anual, este segundo dízimo era separado no primeiro, segundo, quarto e quinto ano do ciclo sabático. Significa que quatro em cada sete produções anuais eram dizimadas para serem consumidas durante as festas que se realizavam três vezes por ano em Yerushalaim. Ou seja, o segundo dízimo era fixo, mas sua separação não era regular, e por isso não era consagrado no terceiro, no sexto e no sétimo ano do ciclo sabático. Isso dava uma média de 5,71% da produção anual.         

        

         Vemos também que esse dízimo se somava ao que já se dava aos levitas. Ou seja, ele não podia ser deduzido daquele dízimo que tinha de ser dado para sustentar os levitas que, não sendo donos de extensões de terra, ficariam desamparados e incapazes de viver e muito mais de celebrar festa diante de Adonay. Logo o dízimo para os levitas era uma obrigação sagrada e permanente.

 

         Claro que havia uma diferença básica em relação ao primeio dízimo, o dízimo para as festas não era entregue. Era retido pela família em suas dispensas até a hora de vendê-lo com o fim expresso de ir à Yerushalaim ou então de o transportar ao lugar sagrado. Por outro lado o dinheiro da venda, caso ela tivesse sido efetuada tinha de ser outra vez convertido em produtos que a pessoa desejasse quando chegasse em Yerushalaim. Desta forma quem cultivava trigo podia converter parte do produto em vinho, quem pisava lagares podia converter uma parte em azeite, quem vendia o azeite podia comprar gado.Bem você também poderia acrescentar que não está em Yerushalaim, mas isso não é desculpa para não celebrar, para isso Adonay lhe permitiu ter um local de culto onde seu nome é invocado, e lá você pode celebrar a ele.

 

         Isso alimentava também a economia de Yerushalaim uma cidade que dependia naquele tempo como hoje em grande parte do turismo religioso. Vemos que era desígnio de Adonay que o povo satisfizesse todo o desejo de suas almas no que se relaciona ao apetite por comidas kashrut, por vinho e por cervejas elaboradas de frutos ou de cereais. É notável a ordem de que esse dízimo convertido em dinheiro podia ser reconvertido em vacas, ovelhas, vinho e bebida forte para que houvesse alegria diante de Adonay. Pretender que o culto de adoração e louvor seja destituído de alegria deve tudo à cabeça dos homens e nada à palavra do Criador.

 

         Ele queria alegria em sua presença na festa dos pães ázimos quando também se fazia a festa da sega, na festa do shavuot (pentecostes) e na festa de sukot (tabernáculos). Eram as chagim regalim ou festas de peregrinação.Estas festas que exigiam a ida ao lugar que o Eterno escolhesse, primeiro onde estivesse santuário móvel e mais tarde Yerushalaim se realizavam três vezes por ano. E o povo não podia ir de mãos vazias.

 

“Três vezes no ano me celebrarás festa: A festa dos pães ázimos guardarás: sete dias comerás pães ázimos como te ordenei, ao tempo apontado no mês de abibe, porque nele saíste do Egito; e ninguém apareça perante mim de mãos vazias; também guardarás a festa da sega, a das primícias do teu trabalho, que houveres semeado no campo; igualmente guardarás a festa da colheita à saída do ano, quando tiveres colhido do campo os frutos do teu trabalho. Três vezes no ano todos os teus homens aparecerão diante de Yah Elohim.” Shemot/Ex23:14-17. 

 

         Sobre o segundo dízimo resta apontar que ele não era um dízimo para ser entregue a outros, mas para ser consumido alegremente pela própria família, já seja diretamente ou através dos produtos que sua venda pudesse comprar. Os 5,71% de dízimo das colheitas que Adonay exigia anualmente em média de cada família eram um patrimônio da família, só que havia uma restrição, eles não podiam ser consumidos de outra forma que não fosse festejando em honra a Adonay que lhes dera as colheitas. Além disso, estas festividades deveriam ser celebradas na cidade santa.

 

 

Financiando as Festas Fora de Yerushalaim         

 

         A ordem para que as festas fossem celebradas em Yerushalaim excitou os debates entre os judeus durante o exílio. Como dizimariam para que pudessem comer nas festas com seus familiares e amigos se a cidade escolhida havia sido tomada e eles haviam sido afastados para tão longa distância? A queda e o exílio os levou a concluir que se deixassem de celebrar as festas depressa o povo se esqueceria delas.

 

         Os judeus messiânicos, embora prezassem muito a presença na cidade santa por ocasião das festas, seguindo o exemplo de Yeshua que subia à Yerushalaim para as celebrar entenderam ainda mais rápido que os judeus rabínicos a necessidade de celebrá-las também na diáspora, incluindo os prosélitos do judaísmo sempre que ir a Yerushalaim fosse impossível. Por essa razão Shaul apelou aos irmãos de Corinto que participassem da festa do Pessach, ainda que limpos do fermento, não apenas do pão, mas também do pecado. As celebrações no início eram trabalhosas. O uso do vinho, que sempre acompanhou as celebrações judaicas por ordenança de Adonay contida na própria Torah devia ser limitado a alegrar o povo. Os recém chegados mais entusiasmados se embriagavam e se empanturravam e deixavam os mais tímicos com fome. Nada que Shaul não considerasse passível de correção. Shaul aproveita a ordenança justamente para lhes dar uma grande lição, os símbolos nada são sem o entendimento do mesmo.

            “Purificai o velho fermento, para que sejais uma nova massa, assim como sois sem fermento. Pois, na verdade, o Maschiach, que é nossa páscoa, foi imolado. Por isso celebremos a festa, não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade.” 1 Coríntios 5:7-8

 

         Claro que para celebrar estas festas, ainda que em memória é necessário que cada família da congregação dedique uma parte de sua renda para isso. O dízimo das festas está intimamente ligado elas. Elas são festas perpétuas e se as celebramos, devemos fazê-lo alegremente e com meios. Se os filhos de Israel separavam em média 5.71% das suas colheitas para essa celebração, além dos dízimos entregues regularmente par ao sustento do ministério por que os membros da congregação não deveriam também dar ofertas especiais para tornar possível a celebração de tais festas?

 

         Bem essa parece ter sido a proposta inicial do movimento de Armstrong. As festas são perpétuas, devem ser celebradas por Israel onde ele estiver, e se as festas são perpétuas, também devem ser perpétuos os dízimos que as acompanhavam. Assim, os membros compareciam a locais especiais escolhidos para celebrar as festas e trariam seu segundo dízimo. Este serviria não só para os gastos de organização da mesma, que eram elevados, pois se escolhiam locais de fácil acesso e que pudessem oferecer conforto aos membros, mas também reforçaria o caixa da organização. Sou de parecer que os ministérios de restauração devem evitar esse caminho.

 

         O problema com esse método a meu ver é que ele fazia os irmãos doarem mais do que era necessário. Isso criava uma carga adicional para as famílias às voltas com a prestação da casa própria, com a mobília, com as parcelas do carro, com o vestuário, com a alimentação, com o ensino dos filhos e com um sem número de outras despesas. Não creio que os doadores deixaram de ser abençoados e prosperados. Era um ato de fé, e por certo pode ter sido galardoado, principalmente por que eles tinham em mente divulgar algumas das mais fascinantes verdades que quase nenhum outra igreja pregava, e que só a IDU o fazia de forma massiva pelos meios de comunicação.

        

         Se não houvesse um retorno maior em bênçãos, pelo menos eles muito se alegravam em ver a organização investindo no rádio, na televisão, num poderoso parque gráfico que consumia milhares de toneladas de papel industrial por ano e nos mais suntuosos prédios que alguma vez uma igreja nos Estados Unidos já ousaram investir. Apesar disso, uma organização não pode se edificar e prosperar a si mesma às expensas do povo que a sustenta. Além disso, devemos aprender a não ir além do que a Palavra ensina. Criar mais um tributo espiritual regular significa retirar 10% da renda das famílias e criarmos um gerenciamento mercantilista da obra que cedo ou tarde se revelará um fracasso.

 

         A Torah é clara, aquele dízimo era para ser consumido alegremente na presença de Adonay. Ele não deve ser empregado para encher as burras da organização de dinheiro. Que cada congregação estude um método de financiar suas próprias festas sem a ingerência da sede. E bem, ainda que decidam fazer festas associando várias congregações, que estas decidam as quotas de cada membro e reúnam seus esforços sem dilapidar as verbas dos irmãos. A cobrança de um segundo dízimo, seja ele de 5,7% ou de 10% não se sustenta na Torah e deve ser completamente descartada. Este dízimo deve ser posto de lado sim, de alguma maneira as famílias precisam ter uma reserva para servir a Adonay e inclusive facilitar o acesso das famílias mais pobres as festividades, bancando-as como forma de doar tsadaká, mas a administração é familiar, não eclesiástica.