O Sacerdócio Levítico, o Dizimo e o Dízimo dos Dízimos

        

Rosh Baruch Ben Avraham

 

         Adicionalmente, inaugurada a aliança do Sinai, e pouco depois da veneração do bezerro de ouro por parte dos israelitas, o sacerdócio dos primogênitos de Israel foi removido deles pela sua infidelidade e posto sobre os levitas.

 

“Eu, eu mesmo tenho tomado os levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo primogênito, que abre a madre, entre os filhos de Israel; e os levitas serão meus, porque todos os primogênitos são meus. No dia em que feri a todos os primogênitos na terra do Egito, santifiquei para mim todos os primogênitos em Israel, tanto dos homens como dos animais; meus serão. Eu sou Yah.” Bamdbar/Nm 3:12-13.

 

         Logo dessa comunicação Adonay determinou que fossem contados todos os homens levitas, a começar pelos bebês maiores de 30 dias um contagem que resultou em 22 mil almas.

 

“Todos os que foram contados dos levitas, que Moisés e Arão contaram por mandado do Senhor, segundo as suas famílias, todos os homens de um mês para cima, eram vinte e dois mil.” Bamdbar/Nm 12:39.

 

         Isso não significa que os primogênitos deixaram de ser importantes. Adonay havia salvado todos os primogênitos de Israel, homens e Animais e se tornaram a sua propriedade. Assim eles também foram contados. A soma revelou 273 primogênitos com mais de 30 dias de vida a mais que os 22 mil levitas.

 

“Moshe, pois, contou, como Yah lhe ordenara, todos os primogênitos entre os filhos de Israel. E todos os primogênitos, pelo número dos nomes, da idade de um mês para cima, segundo os que foram contados deles, eram vinte e dois mil duzentos e setenta e três.” Bamdbar/Nm 12:42-43..

 

         Terminada a contagem nascia uma nova lei em Israel, o resgate dos primogênitos. O primeiro resgate foi dos 273 primogênitos que excediam aos levitas. Mais tarde Adonay ordenou que todo o primogênito fosse resgatado. O primogênito das cabras, vacas e ovelhas, a até mesmo de animais impuros como cavalos e jumentos que não podem ser ofertados também pertenciam a Adonay, e tinham de ser comprados para passar a seus donos. No caso de um animal impuro, se o dono não o quisesse remir tinha de sacrificá-lo, mas de modo algum se beneficiar se seu serviço sem pagar o preço devido a Adonay.

 

         Quando se trata de um menino nascido na família, o primogênito é resgatado mediante o pagamento dos לקש םישמ mishim shekel ou cinco siclos de prata que equivalem a cerca de 101 gramas ou 193,42 reais hoje (20/3/2012). Esta é uma prática que alguns crentes que vivem no campo mantém até hoje em algumas comunidades cristãs. Aqueles que se sentem chamados pela ruach a praticar essa mitzvah hoje podem usar a escala de preço de 3% para animais comparado ao preço de um macho adulto e de 2% das colheitas.

 

         Entrei nesse campo por que alguns judaizantes, especialmente os que renegam Yeshua, tecem comentários negativos em relação aos crentes messiânicos que dizimam suas rendas na atualidade. Afirmam que isso é coisa de goy por que não há sacerdócio ou templo de pé e tais somas não podem ser trazidas à uma congregação local sem incorrer em delito. Essa é uma desculpa esfarrapada para aqueles que se apegam mais ao dinheiro que à causa. O shemá, a mais importante oração judaica determina que amemos a Adonay com todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas posses. Depois do templo temos o dever de amar a Adonay com nossas posses como os patriarcas o fizeram antes dele e cuidar para que sua causa não sofra um dano ainda maior. Verdade é que o judaísmo rabínico cancelou a prática do Maasser rishon ou primeiro dízimo que era a doação de 10% das colheitas para os levitas, bem como do maasser sheni que era a entrega do segundo dízimo dos levitas para os sacerdotes. 

 

         A alegação é de que o templo não está de pé. No entanto, mesmo não dizimando para os sacerdotes eles mantiveram Maasser Ani o dízimo para os pobres sobre o qual falaremos adiante bem como o resgate dos primogênitos, cujo preço deve ser pago  em qualquer lugar como ensina a Beit Chabad.

 

“Cada judeu (exceto cohen ou levi) deve redimir seu filho primogênito nascido (de parto natural, sem aborto anterior) de mãe judia (não filha de cohen ou levi) no 31º dia de vida, com cinco shecalim (moedas de prata equivalentes a 101 g de prata pura). Esta quantia de resgate deve ser entregue, em prata, ao cohen durante a cerimônia. Se o 31º dia coincidir com Shabat ou Yom Tov, (que proíbe transações comerciais) deve ser adiada para o dia seguinte.” (Pidyon Haben: a mitsvá de redimir o primogênito, Chabad.Org.br, página visitada em 19/3/2012. http://www.chabad.org.br/ciclodavida/pidyon_haben/pidyonHaben.html )

 

         A Revista Morasha, que representa o caminho do meio no judaísmo religioso mostra que tal valor pode ser dado para a caridade como podemos ler na sua página visitada a 19/3/2012.

 

“O pagamento do resgate é fixado pelas Escrituras em 5 shekelim de prata (equivalentes a 101 gramas de prata pura. Nos Estados Unidos usa-se 5 dólares de prata e o dinheiro geralmente destina-se a uma instituição de caridade). Aqui em São Paulo costuma-se colocar as moedas em leilão. O dinheiro arrecadado vai para caridade.” (http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=7&p=0 )

 

        

Maassser Rishon - O Primeiro Dízimo do Povo Para os Levitas

 

         Se o resgate do primogênito deve ser dado por que não o dízimo para o sustento do ministério imitando nossos patriarcas de abençoada memória? Esclarecido que mesmo os judeus rabínicos fazem o resgate monetário do primogênito em sua congregação com o seu equivalente as 101 gramas de prata, fica mais que evidente que o fato deles não destinarem mais dízimos aos levitas como os messiânicos fazem a seus ministros é uma questão de interpretação. Dito isso falemos agora do Maasser Rishon, ou Primeiro Dízimo que era dado anualmente pelo povo aos levitas.

 

         "Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são de Yah; santas são ao Yah.  Porém, se alguém das suas dízimas resgatar alguma coisa, acrescentará a sua quinta parte sobre ela. No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao SENHOR. Não se investigará entre o bom e o mau, nem o trocará; mas, se de alguma maneira o trocar, tanto um como o outro será santo; não serão resgatados." Vaykrá/Lv 27:30-33.

 

         Notas-se aqui que o dízimo era integral sobre o produto de cada ano. E é muito interessante a forma de se dizimar o rebanho. Ele passava debaixo de uma vara, no curral. Se contava do 1 ao 9 como sendo nosso, o 10º, fosse gordo ou magro, feio ou bonito era de Adonay.  Esse é um exemplo para os que votam dizimar hoje. Você não pode ir para a feira e dizer: Vou dizimar as galinhas, mas não os patos que vender. Você não pode dizer, vou dizimar meu salário, mas não as férias. Bem, a não ser que você não se tenha comprometido com os dízimos.

 

         Há de se notar que a Torah fala daquilo que os filhos de Israel produziam e que era a base de sua economia. Isso não é desculpa alguma para que aqueles que não plantam oliveiras, não criam vacas e não produzem trigo se sintam desobrigados de seus deveres para com a causa. Isso seria muito cômodo para o comerciante da farmácia que se sentiria desobrigado de sustentar a congregação e muito incomodo para o criador de ovelhas que a teria de carregar sozinho como se ela só fosse dele.

        

         Como já vimos no caso das primícias, cada ser humano e animal tinha seu valor monetário.          Além disso o próprio uso da valores monetários substitutos está presente na ordenança. Suponha que você morasse a 700 km de Yerushalaim e tivesse que levar 10% das 1500 vacas, ovelhas e bois que nasceram no último ano e ainda 10% das 20 toneladas de cereais que foram produzidas. Isso envolveria gasto com transporte e pagamento de pessoal para o serviço. Estes gastos não podiam ser deduzidos dos dízimos. Eles tinham de ser tirados de seu bolso. Isso quer dizer que produto dos dízimos era intocável.

 

         Se você concluísse que gastaria o equivalente a 30% desses dízimos para levá-los ao santuário poderia diminuir esse gasto transformando todo o valor desses dízimos em prata, ouro ou qualquer outro valor facilmente transportável, só que nesse caso, para prevenir a usura a Torah determina que o remidor tinha de acrescentar 20% a mais sobre esse valor.

 

         Bom isso nos remete de novo ao dízimo para os levitas que eram os destinatários perpétuos dos dízimos do templo já que só eles podiam se achegar ao Templo, e que a eles não lhes era permitido ter terras rurais, apenas lotes urbanos para construírem suas casas nas 48 cidades destinadas a eles. Ou seja, os levitas estão privados da maior fonte de renda que é a terra.  

 

“E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam, o ministério da tenda da congregação. ... Porque os dízimos dos filhos de Israel, que oferecerem a Yah em oferta alçada, tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse: No meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão.” Bamdbar/Nm 18:21-24

 

Logo os dízimos para os levitas não podiam ser retidos por parte do ofertante, não podiam ser tomados emprestados para serem devolvidos no próximo ano, não podiam ser consumidos. Eles pertenciam a Adonay que havia feito dos levitas os seus sacerdotes desde o momento em que pelo pecado das tribos diante do bezerro de ouro eles haviam perdido o direito de ter seus primogênitos como kohanin. Qualquer uso das coisas santas exigia reparação com um acréscimo de 20% sobre o valor. Este era um dízimo anual.

 

Deixar de entregar todos os dízimos era considerado um roubo de seu legítimo dono. E o resultado era a maldição sobre os campos e sobre as finanças. Por outro lado, cumprir fielmente com o dever resultava em bênçãos sobre as fontes de produção. Esta benção abriria os olhos das nações verem Israel como um povo bem-aventurado. Temos razões de sobra para acreditar que Adonay ainda honra com bênçãos aqueles que voluntariamente abençoam sua causa, ainda que o texto seguinte diga respeito ao Templo.

 

“Roubará o homem a Elohim? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação. 10 Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz Yah Tsebaot, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. E por causa de vós repreenderei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; e a vossa vide no campo não será estéril, diz Yah Tsebaot. E todas as nações vos chamarão bem-aventurados; porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o SENHOR dos Exércitos. Malachy 3:8-12:

 

Reconhecemos que as maldições decorrentes da subtração dos dízimos diziam respeito apenas ao Templo e este não está de pé. Usá-lo com a veemência que os marqueteiros da fé o empregam para explorar o povo a doar milhões para seus empreendimentos milionários ameaçando-os com maldições sem fim, com o alcance de bruxedos e demônios, com a fila do desemprego, com o descalabro familiar, com “ou dá o desce”, ou o “se não der pra Deus vai dar pro diabo” da célebre frase do Edir Macedo, foge ao escopo das Escrituras, estimula o egoísmo em vez do altruísmo. 

 

Um crente messiânico não deve ser levado a contribuir para a causa confundindo congregação com igreja ou Beit Knesset com Beit Há Mikdesh. Além, do mais ninguém deve ser coagido a doar por que ama as bênçãos resultantes de sua doação. O crente iluminado pela palavra doará por amor à causa que ele abraça. Ele considerará que as bênçãos já vieram, e que por isso ele está doando seus dízimos e ofertas. Isso é claro não precisa excluir o desejo e a espera de maiores bênçãos de corrente do cumprimento de nossos votos. O que a Torah nos ensina é que se votamos servir a Adonay com nossas rendas, devemos ser tão fiéis em nossos votos como desejamos que ele seja fiel conosco abençoando nosso trabalho e tornando-o produtivo.  Logo, não há nenhuma incompatibilidade entre a fé na Torah e a entrega de maasser numa congregação, tanto quanto não o há em resgatar o primogênito e dá-lo a um kohen ou a uma creche da congregação.  Ambos os casos são manifestações de zelo pela Torah, ainda que cada grupo entenda seu dever de maneira diferente.

 

 

Maassser Rishon - O Primeiro Dízimo do Levita Para o Sacerdote

 

         Por sua vez os levitas também se convertiam em dizimistas. Computados os valores que entravam anualmente nos celeiros, os levitas separavam 10% de tudo isso e o davam aos sacerdotes. Se tratava ainda do Maasser Rishon ou Primeiro Dízimo, por que era um dízimo anual. O Dízimo dos levitas para os sacedotes eram pois apenas a redistribuição dos dízimos. Assim como 90% da renda ficava com o povo e 10% eram dados aos levitas, também estes participavam alegremente da dádiva da doação separando 90% para eles e entregando os outros 10% aos kohanin ou sacerdotes par a manutenção de suas famílias.

 

         Claro que o povo também experimentava a alegria de doar diretamente para os sacerdotes. Isso acontecia especialmente nas festas quando o povo ia à Yerushalaim com cestos cheios dos primeiros frutos de sua colheita e os doava ao sacerdote que os depositava diante do altar enquanto o festival prosseguia. Essa era a oferta do bikurim ou primícias. A descrição de como elas eram dadas se encontra em Devarim/Dt 5. A ordenança era: “As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus.” Shemot/Ex 23:19. Além disso, o sacerdócio recebia cerca de 2º das colheitas na forma de terumah guedolah. Como já vimos anteriormente todos os primogênitos de Israel eram remidos através de 101 gramas de prata. O valor dessa remissão, o Peidyon há Ben ou Resgate do Filho também era destinado aos sacerdotes.  

 

         Achei muito inspirador quando uma família de nossa congregação, tendo colhido o primeiro cacho de uma bananeira do quintal apareceu durante uma das festas bíblicas na congregação com diversas pencas de banana e as distribuiu entre os irmãos, separando uma poção dupla para nossa família por nos dedicarmos mais integralmente ao serviço.  Esse é um exemplo de como o espírito da Torah pode ser cumprido para que seus valores se perpetuem entre nós e nos recordemos que nossas colheitas são o resultado da benção de Adonay que nos deu um solo para plantar e cuidou de nossa semente até virar fruto.       

         Para os dias de hoje, reservar um dia de seu salário a cada quatro meses para abençoar aquele que se dedica à ministração da palavra a orar com as famílias e a prestar auxílio espiritual, alguém que você sente que atua como um sacerdote para ser beneficiado por essa oferta extra pode ser uma alternativa para conservar o mesmo espírito dos dias da Torah.

 

         Recordemos que a Torah é espiritual é que não é seu cumprimento literal, hoje até impossível o que vale, mas nosso mover em seu espírito. Nesse caso, porém não confunda os papéis. A Terumah guedolah não é o mesmo que tsedakah ou ajuda aos pobres. Se bem que ajudar aos pobres também seja um dever sagrado, se você se sente inclinado a dar Terumah esta tem de ser destinada diretamente aos que dedicam sua vida à causa de Adonay.

 

         Assim, se a Tesadakáh pode ser dada a qualquer pessoa mais pobre, de preferência da mesma fé, a Terumah é exclusiva para os que ministram, sejam eles ou não carentes. No entanto, essa é uma doação que vem do coração. Não creio que deva ser imposta hoje, ainda que certamente a disposição de cumpri-la resultará em bênçãos, por que todos os que semeiam em benção, em benção também ceifarão.

 

“E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância também ceifará” (2 Co 9.6). 

 

         Os sacerdotes por sua vez, não tendo em Israel uma autoridade espiritual maior que a deles, estavam isentos de dizimarem, mas não do dever de ofertar a Adonay, de dar tsedakah aos mais pobres e de hospedar os sem teto. No reino todos são doadores, principalmente os que mais recebem. Um exemplo disso era o que acontecia com os assassinos involuntários, aqueles que por serem do tipo: “não levo desaforo para casa”, revidavam ou provocavam brigas que resultavam na morte do adversário, mesmo não tendo a intenção de o fazer. Estas pessoas, por serem de temperamento violento podiam ser mortas pelo vingador de sangue, e por isso fugir para as irei miklat (cidades de refúgio) e a tradição diz que os mais violentos se hospedavam com o sacerdote.