As Festas Eternas (Parte II)

 

Rosh Baruch Ben Avraham

 

Shalom Alechem Chevarim!

Paz seja convosco amigos!

 

 

         No artigo anterior questionamos a vantagem que a igreja cristã teria se adotassem o culto tal como prescrito pela palavra em vez de se sentir na obrigação de criar um culto sem estar nem mesmo certa de que é exatamente isso que Adonay requer. Logo analisamos o mérito da forma como os batistas do sétimo dia expuseram o shabat, alegando que as festas estavam destinadas a ser abolidas, mas não o shabat por que esse não é um dia ligados às cerimônias judaicas, mas à própria criação e destinado a ser celebrado na eternidade, no ponto do tempo que os judeus chamam de Olam Rabá ou mundo vindouro.

        

         No presente artigo veremos que o shabat e as festas são igualmente perpétuos, que o shabat semanal também estava ligado à lei ritual e que no olam rabá se celebrarão não só os sábados, mas também as luas novas.

 

        

Sábado e Festas Igualmente Perpétuos

 

         A visão batista do sétimo dia que se projetou no mundo graças a sua filha mais poderosa a Igreja Adventista do Sétimo Dia é de que o sábado difere das demais festas por várias razões. Eles dizem que a primeira é que o shabat veio do Éden, e que portanto tem primazia sobre os outros mandamentos, mas lavam os pés uns aos outros e dizem que isso é um sinal perpétuo para os santos, apesar desse mandamento não vir do éden. De igual forma são fiéis dizimistas, mandamento que não existia no Éden.

 

         Creio que a primeira coisa que precisamos estabelecer é que a perpetuidade e importância de um mandamento não se determina pelo tempo de sua existência, mas pela sua origem e extensão. Ora, as festas bíblicas e o shabat pertencem à essa categoria, foram mandamentos dados pelo Eterno como instituições perpétuas, e não ousaríamos determinar que um seja mais importante que o outro em virtude da ordem cronológica de sua ordenação. Basta-nos que YHWH nos tenha ordenado como perpétuos. E isso vê-se tão claramente em relação ao shabat semanal como em relação ao shabat do 10° dia do sétimo mês, por exemplo.

 

         Com relação ao shabat nos é dito: “Guardarão, pois, o shabat os filhos de Israel, celebrando-o nas suas gerações por aliança perpétua.” Shemot/Ex 31:16. Ordem idêntica nos é dada em relação ao Yom kypur: “Nenhum trabalho fareis; estatuto perpétuo é pelas vossas gerações em todas as vossas habitações. Shabat de descanso vos será; então afligireis as vossas almas; aos nove do mês à tarde, de uma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado.” Vaikrá/Lv 23:31-32.

 

         Logo o Yom Kypur não é menos sagrado por ser chamado “vosso sábado”, pois é uma das oito solenidades do Eterno. Além disso se o shabat é uma berit olam ou aliança perpétua o Yom Kypur é um chukat olam, ou seja por estatuto perpétuo. Claro que a teologia da substituição brinca com a palavra olam dando a ela o significado que bem lhe parece, e na maioria das vezes afirma que olam não sigifica para sempre, mas apenas por tempo ilimitado. Esse é um expediente cômodo por que permite ao dispensacionalista decidir livremente quando esse tempo ilimitado chega ao fim, valendo apenas seu gosto ou desgosto por uma ordenança do Eterno.

 

         Um evangélico que tem aversão ao shabat dirá que o tempo ilimitado do shabat findou com o sacrifício do Gólgota, já um adventista dirá que foi o tempo ilimitado do Yom Kypur que cessou e não o Shabat. Claro que ambas as visões são o fruto tardio de um mesmo método, não dar às palavras do Eterno faladas através de Moshe a importância devida, pois o mesmo criador que disse em Shemot 31:16: la assot et há shabat ledorotam “celebrarão o shabat em suas gerações”, também deu o Yom Kyppur como um estatuto enquadrado na categoria de  “ledoroteichem” ou seja, “para todas as vossas gerações.”

 

         O Novo Céu e a Nova Terra Perpetuam a Celebração da Lua Nova Nada poderia ser mais conclusivo quanto a falácia da visão batista do sétimo dia seguida pelos adventistas do que a revelação dada através do profeta Yeshayahú de que na eternidade não só o shabat, mas também a festa da lua nova serão santificados. Isso é intrigante, pois Yeshayahú 66 foi sempre citado pelos cristãos sabatistas como prova de que o argumento de que o shabat cessou no Gólgota é um argumento sem sustentação. É intrigante por que o profeta não cita apenas op shabat que os adventistas amam, mas também a lua nova que desprezam.

 

         Contudo o Eterno diz que no Olam Rabá o mundo vindouro, ou nos há shamayim há chadashiym (novos céus) e na  vê`haaretz há chadashá (nova terra) que ele fará todos virão periodicamente à sua presença. Com que peridiodicidade isso se realizará? Deixemos que o profeta nos explique

 

         O Eterno declara: umedey shabat be`shabato (virá à minha presença de sábado a sábado). Um texto que os adventistas, e seus filhos da Igreja de Deus aprenderam a usar muito bem, e estamos contentes por isso. Mas o problema de sua investigação é que estudaram a Bíblia para provar a necessidade de cumprir mandamentos que eles amam ao passo que ignoram aqueles que desprezam. Bom, não sendo o que pretendem como organização, ou seja, o povo eleito, não conseguem se aperceber que há uma outra festividade que se perpetua pela eternidade a da lua nova.

 

         Sim, isso é claro em Yeshayahú que repete as palavras de YHWH e diz  midey chodesh be`chadosho (de lua nova a lua nova) yavó kol basar (virá toda a carne) a adorar perante mim.” Yeshayahu 66:23. Esse texto lança pois uma pá de cal nas pretensões não apenas dos evangélicos que declaram o shabat anulado, mas também nas pretensões dos batistas do sétimo dia, de seus filhos adventistas, de seus netos da igreja de Deus e todos as suas afiliados e primas em primeiro e segundo grau que se atrevem a declarar que a festa da lua nova foi abolida.

 

 

Existem Sábados Cerimoniais?

 

         Esta é uma pergunta crucial para nosso debate. O movimento

sabatista descarta as festas argumentando que elas estavam ligadas

a cerimônias, ofertas de cereais, azeite, vinho ou animais e se apega

ao shabat alegando que nele havia somente a “obrigação moral” de

descansar. O sábado semanal é chamado arbitrariamente de mandamento moral, como se houvesse alguma moralidade, além da

obediência em santificar esse dia. Já os moedim (solenidades ou tempos apontados) são arbitrariamente chamados de sábados cerimoniais. Já vimos como isso não faz sentido, primeiro porque o termo sábado cerimonial jamais é mencionado nas Escrituras e segundo por que as festas ou chagim não são chamadas de sábados

na Torah, pois não exigiam a cassação do trabalho doméstico, como

o preparo da comida, por exemplo, mas apenas do trabalho servil. 

 

         O caso do Yom Kyppur, o mais sagrado de todos os dias ordenados pela Torah é diferente. Nele se aplicam todas as leis do shabat com ainda mais vigor, o Yom Kyppur é o shabat shabaton, o sábado dos sábados. Nele é exigida a abstinência de todo e qualquer prazer da alma desde o simples copo de água ao exercício da sexualidade, passando pela alimentação. O Yom Kippur, conquanto seja um dos oito moedim (solenidades) não é uma festa como se costuma pensar, mas sim um dia de jejum e aflição da alma.Ora quanto a isso não há dúvida a Torah não só chama o Yom Kyppur de Shabat para que fique patente que ele é um “moad” ou tempo apontado que difere das “chagim” ou festas e se iguala ao shabat do sétimo dia.

 

Shabat shabaton lachem vê`iniytem et nafeshoteichem

Sábado de descanso será para vós e afligireis as vossas almas.

Be`tisha La`chodesh ba`erev me`erev ad erav tishebetu

shabat`chem.

Aos nove dias do mês à tarde de uma tarde a outra tarde

descansareis o vosso shabat.

 

         Claro que os que desejam ignorar o mandamento alegam que

o Yom Kyppur é descrito como o sábado de Israel e o sétimo dia como o sábado do Eterno. Um argumento inócuo, pois já vimos que

todos os oito tempos apontados em Vaykrá 23, do shabat á o sukot são chamados pelo próprio Eterno de eleh hem moeday ou (minhas solenidades), o que deita por terra tais pretensões. Todavia, outros dois enganos colossais ainda povoam a imaginação da maioria dos sabatistas cristãos, o ensino de que o shabat é o único moedim que é perpétuo por ter sido dado no Éden e não estar ligado ao sistema cerimonial. Em primeiro lugar o shabat não é perpétuo por que vem do éden, mas por que foi ordenado no Sinai como berit olam (aliança perpétua). Além disso o shabat está tão ligado ao sistema sacrifical como qualquer outro dia santo.

 

         Tenho ouvido líderes sabatistas adventistas, pentecostais e das “Igrejas de Deus” me perguntando em tom irônico de que vale meu Yom Kyppur se o Kohen há Gadol não está mais sacrificando o novilho, o cordeiro e os dois bodes necessários á expiação. Ainda recentemente um amigo meu da “Igreja de Deus” me perguntou se eu guardo o Yom HaKippurim. Quando lhe respondi que sim ele indagou em tom de ironia se eu sacrificava o novilho e o carneiro de Yom Kyppur e se fazia a oferta do bode para YHWH e para Azazel. A pergunta dá uma ideia de quanto o sabatismo, apesar da sua sinceridade e boa intenção ainda desconhece à Torah.

 

         Expliquei-lhe que não tenho obrigação alguma de efetuar sacrifícios no Yom Kyppur e que fazer isso não só não me é imposto como está totalmente proibido, posto que não sou kohem há gadol (sumo sacerdote), a unida pessoa autorizada pela Torah a fazer o cerimonial de Yom Kyppur no santuário. Como crente israelita cumpro o mandamento que é imposto a todo o povo, cesso toda a sua atividade no shabat do 10° dia do sétimo mês, jejuar para afligir a sua alma, reconhecer seus pecados e suplicar perdão por si e por Israel. Ele argumentou então que esse dia não pode mais ter sentido algum, pois não há sumo sacerdote, não há santuário e não há sacrifícios.

 

         Meu amigo simplesmente ignora, como qualquer batista ou adventista ignora que o que é verdade em relação ao Yom Kippur não é menos verdade em relação ao shabat. Assim, enquanto o restante do povo devia apenas cessar o trabalho no sétimo dia, lá no santuário havia muito mais mandamentos a cumprir. Levitas e sacerdotes dobravam suas atividades quando chegava o shabat, pois as ofertas, holocaustos e sacrifícios específicos para esse dia diferiam do sacrifício continuo oferecido no resto dos dias da semana. Quando lhe perguntei a ele por que não fazia os sacrifícios que a Torah ordena para o dia de shabat, já que considera o shabat perpétuo, ele desconcertado simplesmente devolveu a pergunta.

Meu amado irmão, apesar de se julgar um mestre em Israel simplesmente ignorava que havia tais sacrifícios sabáticos. Imagina que as leis cerimoniais acompanhavam apenas as festas. Vamos eliminar esse erro com o auxílio da palavra que começa com as ofertas dos pães da preposição que deviam ser postas em fileira no santuário durante o shabat.

 

         “Também tomarás da flor de farinha, e dela cozerás doze pães; cada pão será de duas dízimas de um efa. E os porás em duas fileiras, seis em cada fileira, sobre a mesa pura, perante YHWH. E sobre cada fileira porás incenso puro, para que seja, para o pão, por oferta memorial; oferta queimada é a YHWH. Em cada dia de Shabat, isto se porá em ordem perante YHWH continuamente, pelos filhos de Israel, por aliança perpétua.” Vaikrá/Lv 24:5-8.

 

         Durante todo o tempo em que o santuário estava de pé esta ordenança do oferecimento dos lechem há maarachet ou pães da preposição tinha de ser cumprida como o prova a seguinte declaração:

 

         “E alguns dos seus irmãos, dos filhos dos coatitas, tinham o encargo de preparar os pães da proposição para todos os sábados.” Divrey Hayamim Alef/1Cr 9:32.

 

         Além disso, enquanto diariamente se ofereciam dois cordeiros

com uma décima parte de um efa de farinha (cerca de 4 quilos) amassada com um quarto de him (900 ml) de azeite batido e a mesma medida de shekar ou bebida forte, no shabat se ofereciam quatro cordeiros, 8 quilos de farinha, 1.8 litros de azeite e 1,8 litros de bebida forte. (Bamidbar/Nm 28:7-10). Estas ordenanças estão intimamente ligadas ao shabat e ao santuário. Logo, se for verdade que os rituais do santuário convertem um dia em preceito “meramente cerimonial” o sábado seria também um dia de cerimônias.

 

         A questão básica é que cada festa do Eterno tem um sentido diferenciado e assim como o shabat foi dado para celebrar a criação e o pessach para celebrar a libertação do Egito o Yom Kippur foi dado para celebrar a expiação e o perdão dos pecados.

        

         Assim, enquanto o shabat era celebrado no santuário com o sacrifício duplicado de cordeiros, farinha, azeite e bebida forte e o Yom Kypur com o sacrifício extra de um novilho e dois bodes, nas casas o shabat era celebrado apenas com o descanso e o yom kypur apenas pelo descanso seguido de jejum. O cumprimento do mandamento de descansar no lar, em ambos os dias e em todas as habitações e gerações de Israel, não dependia e não depende do santuário.

 

Continua!