De Jerusalém Para Roma - Parte II

Baruch Ben Avraham

 

O 1º Trauma Entre Judeus Messiânicos e Tradicionais (67 a 70 EC) 

O 2º Trauma Entre Judeus Messiânicos e Tradicionais (130 a 132 EC)

 

 

O 1º Trauma Entre Judeus Messiânicos e Tradicionais (67 a 70 EC) 

 

Quem quer que frequente uma congregação que dá espaço à manifestação do livre pensamento notará debates acirrados entre crentes que partilham uma porção de coisas em comum, mas que discordam num ponto em particular.  Experimente a falar de predestinação numa escola dominical, numa escola sabatina ou  num encontro de líderes evangélicos e verá acirradas discussões entre cristãos. Isso não era diferente entre os judeus.

 

É um fato que havia confrontos entre nazarenos e fariseus, e que estes confrontos se desenrolam nos locais públicos e privados, no entanto, e que ocasionalmente pessoas destemperadas partissem até para a violência a fim se resolver disputas ideológicas. Mas normalmente os confrontos entre nazarenos e fariseus não eram mais intensos dos que opunham fariseus e saduceus, e nem mesmo mais intensos dos que opunham as duas casas rivais do farisaísmo, a Beit Hillel e a Beit Shamay.

 

Nada faz supor que os nazarenos que fugiram de Yerushalaim no ano 70 e que para lá retornaram pouco depois até serem banidos definitivamente chegaram a ser uma Igreja Católica Apostólica Romana por uma simples e natural involução de sua fé. Que se tornam “cristãos” gentios. No entanto sabemos que as origens da Igreja Católica Apostólica Romana também são judaicas, ou pelo menos parcialmente judaicas.

 

Para entender por que um movimento judaico chegou a uma ramificação tão transviada chamada cristianismo católico romano é preciso ter em conta que o judaísmo e seus diversos segmentos passou por três traumas tremendos. O primeiro trauma ocorreu no ano 70 quando Yerushalaim foi atacada pelos romanos, o templo foi destruído e os crentes messiânicos ficaram fora da luta.

 

A razão disso é que haviam sido advertidos por Yeshua de que deviam fugir para os montes quando vissem Yerushalaim cercada de exércitos, já que a cidade seria inapelavelmente destruída. (Matytyahú/Mt 24:16). O fato de que os crentes em Yeshua tivessem se negado a lutar ao lado dos fanáticos zelotes, edomitas e outros extremistas que tomaram a cidade de assalto por ocasião da celebração da festa de Pessach e tivessem fugido para a cidade de Pela antes da sua tomada pelas tropas romanas semeou a desconfiança entre judeus não messiânicos e judeus messiânicos acerca da verdadeira identidade religiosa dos nazarenos.

 

A partir daí os messiânicos começaram a ser vistos como traidores da causa judaica, e não apenas como pessoas que sustentavam pontos opostos como ocorria com perushim (fariseus) e tsadokim (Saduceus). Os vínculos que uniam as diferentes seitas numa religião comum, o judaísmo e num lugar sagrado comum a todos, o templo, começaram a ruir, principalmente a partir do momento em que a subida ao monte Tzion, expressão máxima da fé judaica já não era possível por que o Templo estava em ruínas.  Ainda assim os zakenim (anciãos) da circuncisão dirigiam a obra desde Yerushalaim. Distanciados, mais ainda assim unidos em torno da cidade santa.

 

Sabemos que mesmo ante um claro distanciamento entre a seita dos nazarenos e as seitas dos perushim e tsadokim os crentes em Yeshua seguiram tão ligados a Yerushalaim como antes. Ali eram tomadas as decisões mais importantes para o desenvolvimento da missão de proclamar a bessorat ao mundo e principalmente o caminho a seguir para atrair os gentios à Torah como é narrado em Atos 15 e Atos 21 bem como no livro de Galátas.

 

 

 

O 2º Trauma Entre Judeus Messiânicos e Tradicionais (130 a 132 EC)

 

No entanto, um trauma muito maior viria 60 anos depois quando Bar Kosba, um, mentiroso trapaceiro e fanático foi ungido Messias pelo pai da era tanaítica, o renomado Rabi Yosef Akiba. Os crentes em Yeshua sabiam que viriam homens em seu próprio nome que seriam cridos pelos que tinha rejeitado Yeshua depois dele ter vindo em nome de seu pai. (Yochanan 5:43).

 

Isso veio efetivamente acontecer no ano 130, por ocasião da Segunda Revolta Judaica contra Roma. E o problema não era nem mesmo combater um império que acabara de desrespeitar o monte santo colocando sobre ele uma estátua do ímpio Adriano. Em defesa do lugar santo era mais que provável que os messiânicos estivessem dispostos a se sacrificar desde que a causa fosse compatível com sua fé, mas esse não era o caso. Eles não estavam sendo convidados a defender os lugares santos, mas a se engajar na luta em defesa de um homem profano que habilmente catalisara a indignação do povo contra Roma em benefício de sua própria glória.

 

O Problema era o juramento em torno de um falso Messias que havia ludibriado o Beit Din rabínico cujos olhos foram fechados para abraçar o messias verdadeiro, mas se abriam para um messias falso a quem os messiânicos jamais seguiriam nem na vida e nem na morte. Essa era uma decisão difícil para os crentes messiânicos. Ver seu povo envolvido numa batalha em nome de um falsário sem nada poder fazer para ajudar não deve ter sido tarefa fácil para os crentes em Yeshua.

Ali estavam bandidos nacionais escravizando seu povo e levando-os a sustentar uma luta sangrenta cujos resultados para eles eram certos, a derrota e a humilhação numa reedição ainda maior. Eles sabiam que a hora da gueuláh ainda estava distante, os demais não.

 

“A rebelião dos judeus tomava novamente maior força e maior extensão.  Rufo, governador da Judéia, com o reforço militar enviado pelo imperador e tirando partido sem piedade de sua louca temeridade, marchou contra  eles. Aniquilou em massa milhares de homens, de crianças e de mulheres, e ao amparo da lei da guerra reduziu seus territórios à escravidão. Mandava então sobre os judeus um chamado Barkokebas, que significa "estrela", um homem homicida e bandido, mas que, por seu nome, como  se tratasse com escravos, dizia que era luz descida dos céus para eles, e com mágicas enganosas fazia ver aos maltratados que brilhava.” Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, Pág. 269.

 

Mas se era difícil para os crentes não ajudar seus irmãos quando os exércitos de Roma reduziam cidades e vilas e escombros, humilhavam suas mulheres e virgens e massacravam, torturavam e escravizavam seus irmãos, para os demais judeus entender por que não se juntavam a eles naquela luta de morte foi ainda mais difícil. O Rabi Akiva Ben Yosef (17-137), cuja tumba se encontra em Tiberíades, sendo objeto de veneração pelos judeus ortodoxos até o dia de hoje foi o instrumento da separação espiritual entre judeus crentes em Yeshua e os descrentes ao abençoar o embusteiro Bar Kochba como Rei e Messias de Israel.

 

A verdade é que embora isso não pudesse ser entendido pela comunidade judaica não messiânica os crentes em Yeshua não podiam marchar sob as ordens de um fanático e lunático que se proclamava Messias. Na guerra em que pereceram 500 mil judeus, os messiânicos que sabiam quem era o verdadeiro Messias não estavam lá. Uma barreira enorme se abriu entre os judeus tradicionais seguidores do embusteiro Bar Kosba com a benção do Rabino Akiba, o grande herói da Era Talmúdica e os judeus messiânicos que foram então amaldiçoados pelo Rabino Akiba e passaram a ser denunciados como falsos, hipócritas e apóstatas.

No ano 133 os revoltosos foram finalmente silenciados. Centenas de milhares deles foram mortos e muitos escravizados. Meninas judias foram vendidas como prostitutas e mulheres arrancadas dos braços de seus maridos. Cerca de 580 mil judeus perderam a vida na infame revolta liderada por um infame messias, e sufocada pelo mais infame dos exércitos da antiguidade, o exercito romano.

 

A batalha foi entre judeus não messiânicos enganados com a perspectiva de que a hora da redenção havia chegado e as detestáveis legiões romanas, no entanto os messiânicos que não haviam seguido o trapaceiro Bar Kochba e o cego Rabi Yosef Akiba, (17-137) os quais também amavam Yerushalaim mais do que qualquer lugar na terra viriam a sofrer um duro golpe. Se por um lado Yeshua era o Messias de uns e Bar Kochba o Messias dos demais, para ambos os grupos Yerushalaim era a cidade santa e o Monte Tzion o lugar sagrado.

 

Por esse motivo, até a segunda revolta a direção das congregações messiânicas de todo o mundo, tanto as formadas por judeus, como as formadas por judeus e gentios se localizava em Yerushalaim. Era dali, que eles dirigiam a obra e deitavam halachá para todos os crentes, judeus ou gentios. E segundo as contas apresentadas por Eusébio de Cesaréia os anciãos da circuncisão foram em número de 15 desde Yakov (Tiago) até Yehudáh (Judas).

 

Os bispos de Jerusalém, desde o Salvador até os tempos de Adriano: “ No que tange às datas dos bispos de Jerusalém, nada encontrei conservado por escrito, porque, na verdade, uma tradição afirma que tiveram vida muito breve.  Do que foi deixado por escrito, consegui tirar a limpo isto: que até o assédio dos judeus, nos tempos  de Adriano, houve uma sucessão de bispos em número de quinze, e dizem que desde a origem todos eram hebreus que  haviam aceitado sinceramente o conhecimento de Cristo, tanto que aqueles que estavam capacitados a julgá-los consideraram-nos até dignos do cargo  de bispos. Naquele tempo, efetivamente, a igreja era toda composta por fiéis hebreus, desde os apóstolos até o assédio dos que então restavam, quando os judeus, novamente separados dos romanos, foram vítimas de grandes guerras.

Portanto, como quer que tenham terminado os bispos procedentes da circuncisão naquele  momento, talvez seja necessário agora dar sua lista desde o primeiro. O primeiro pois, foi Tiago, o chamado irmão do Senhor; depois dele o segundo foi Simeão; o terceiro, Justo; o quarto, Zaqueu; o quinto, Tobias; o sexto, Benjamim; o sétimo, João; o oitavo, Matias; o nono, Felipe; o décimo, Sêneca; o décimo primeiro, Justo; o décimo segundo,  Levi; o décimo terceiro, Efrem; José o décimo quarto e, depois de todos, o décimo quinto, Judas..

 

Estes foram os bispos da cidade de Jerusalém, desde os apóstolos até o tempo de que estamos falando, e todos oriundos da circuncisão..

 

Achava-se o reinado em seu décimo segundo ano quando Sixto, que havia cumprido seu décimo  ano no episcopado de Roma, foi sucedido por Telesforo, sétimo a partir dos apóstolos. Passando ainda um ano e alguns  meses, Eumenes recebe em sucessão a presidência da igreja de Alexandria; segundo a ordem, foi o sexto. Seu predecessor havia permanecido no cargo onze anos.”  Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, Casa Publicadora das Assembleias de Deus, Rio de Janeiro, Págs. 268-269.

 

Após Yehudá no ano 135, começaram então os bispos incircuncisos a governarem a comunidade messiânica de Yerushalaim, que passou a ser composta apenas de gentios.

 

“Por decisão e por mandato de uma lei de Adriano proibiu-se a todo o povo judeu dali em diante pôr os pés  sequer na região que rodeia Jerusalém, de forma que nem de longe podiam  contemplar o solo pátrio. Isto foi contado por Ariston de Pela.  Assim foi que a cidade chegou a ficar vazia da raça judia, e foi total a ruína de seus antigos moradores. Pessoas de outra raça vieram a habitá-la, e a cidade romana então constituída logo trocou de nome e se chamou Elia, em honra ao imperador Adriano. Mas também a igreja dali veio a ser composta de gentios, e o primeiro que se encarregou de seu ministério, depois dos bispos que procediam da circuncisão, foi Marcos..” Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, Pág 356

 

A tradição cristã diz que esta rápida sucessão se devia ao fato de que os líderes da comunidade sobreviveram pouco tempo, sendo logo assassinados por seus irmãos judeus.

Na minha opinião essa é mais uma lenda cristã sustentada por Eusébio e por toda a cristandade romana e apóstata para justificar mais tarde tanto a mudança da sede para Roma como as posteriores perseguições cruéis contra os irmãos de Yeshua, os judeus. Na minha opinião o que ocorria é que regularmente a comunidade messiânica substituía seus zakenim que eram então despachados para outras missões.

 

É bom ressaltar, que a Roma que mais tarde absorve a visão de Yeshua como Messias, não sem antes corrompê-la, não estava em guerra com judeus não messiânicos, mas com todos os judeus. Assim, ainda que os messiânicos não participaram da luta, nem por isso foram tratados com mais brandura ou tolerados. Adriano se proclamara Elohim e exigira adoração de seus súditos. Se os crentes messiânicos não estavam prontos nem mesmo a aceitar um Messias judeu impostor que se proclamava defensor da unicidade de Elohim quanto mais um Elohim impostor chamado Adriano, homem de amaldiçoada memória para todos os crentes, messiânicos ou não.  

 

Assim, a ira de Adriano, maldita seja sua memória não conheceu distinções entre judeus messiânicos e não messiânicos. Ele odiou os judeus como um todo. Isso tem sido um fato quando a política de estado é antissemita. No entanto, se a primeira revolta contra Roma criara um trauma, havia agora um segundo trauma. Por segunda vez os judeus não messiânicos, por não crerem em Yeshua o último de todos os profetas de Israel, haviam sido reduzidos a humilhação, à escravidão e ao morticínio.

 

Da mesma maneira como o profeta Yirmiahú exortara os crentes a saírem da cidade santa, abandonando as armas e rendendo-se ao invasor caldeu, Yeshua apelara aos de sua geração para não resistir ao perverso invasor romano. A razão era simples, o poder que Roma exercia sobre Israel havia sido determinado por Elohim por causa dos pecados do povo. Isso Yeshua deixara claro a Pôncio Pilatos quando disse: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fora dado.” Yochanan/Jo 19:11. Mas o discurso de Yeshua foi desconsiderado pela maioria.

O que Yeshua disse de Pilatos, representante oficial do poder romano em Israel não é menos verdadeiro em relação ao Império. Quem conhece a história judaica sabe que o domínio romano sobre os judeus foi um severo castigo pelo qual a crueldade judaica foi punida.

 

         Os judeus, depois de conquistarem a independência no ano 165 derrotando o império selêucida e o maldito Antioco não foram capazes de gerir a sua independência e precisaram da intervenção de Roma para por fim a uma guerra civil em que judeus matavam judeus sem a mínima piedade. Um dos episódios mais dantescos dessa época foi promovido pelo rei judaico Sobre Alexandre Janeu (103-76 AEC).

 

” Ele obrigou os chefes (inimigos) a se retirarem a Betom, tomou a cidade e os mandou prisioneiros a Jerusalém, onde para se vingar das ofensas que tinha recebido, usou contra eles da mais horrível crueldade. Ao mesmo tempo, quando se entregava a um banquete com as suas concubinas, num lugar bastante elevado, de onde podia ver tudo, mesmo ao longe, ele fez crucificar uns oitocentos na sua presença, e estrangular diante de seus mesmos olhos, enquanto eles ainda viviam, suas mulheres e filho.” Flavio Josefo, A História dos Hebreus, CPAD, Rio de Janeiro, 1992, pag. 318-319.

 

Isso explica por que os crentes messiânicos se negaram a lutar e o que causou o segundo trauma nas relações interjudaicas, ainda mais grave que o primeiro ocorrido no ano 67 por ocasião da primeira revolta.

 

Se na primeira revolta eles não participaram da guerra em defesa de Yerushalaim por que Yeshua os ordenara fugir da cidade santa quando ela estivesse cercada de exércitos e por que a cidade havia sido tomada por um bando de bestas selvagens que a levaram a ruína na segunda revolta eles não participaram por foi conduzida por um louco ainda mais desvairado que os bandidos que a dominaram no primeiro cerco. E enquanto isso os judeus não crentes em Yeshua viam os crentes como traidores. As portas para que os judeus não mais se unissem ao movimento messiânico estavam sendo fechadas lentamente e só voltariam a se abrir de novo passados mais de 15 séculos.

A rivalidade e a separação definitiva entre judeus crentes em Yeshua e os não crentes estava agora começando para valer. Dali para a frente eles não teriam mais acesso às sinagogas e lendas deploráveis sobre Yeshua passariam a ser sustentadas a fim de que a comunidade judaica sujos olhos Elohim fechava, não na totalidade, mas em grande parte não mais pudesse sequer discutir a hipótese de Yeshua ser o Maschiach.

 

Isso veio a se manifestar claramente nas fontes rabínicas dos anos posteriores especialmente com a redação do abominável e traumático ושי תודלות רפס Sefer Doledot Yeshu (Livro da História de Yeshu) revelariam mais tarde. A asquerosa obra que permitia aos judeus verem Yeshua como um manzer filho de uma prostituta judia com um soldado romano e ao mesmo tempo se protegerem nos debates afirmando que Yeshu Ben Pandera era apenas um impostor cuja narrativa nada tem a ver com Yeshua Ben Yosef. Habilmente os rabinos medievais criaram um personagem que teria vivido durante a época da rainha judia helenista Salomé Alexandra (139-67 AEC), mas cujas narrativas nas entrelinhas visavam criar um contraponto para o Maschiach.