De Jerusalém Para Roma – Parte I

 

Rosh Baruch Ben Avraham

 

Introdução

Todos os Crentes em Yeshua se Chamavam de Fato Cristãos?

Yeshua o Nazareno

A Seita Judaica dos Nazarenos – Os Primeiros Messiânicos

Cristãos ou Chamados Cristãos?

Não Havia Relações Judaico Cristãs no Primeiro Século

 

 

 

Introdução

 

Uma das mais intrigantes perguntas para qualquer investigador da história é: Como um movimento israelita nascido em Yerushalaim fundado por doze enviados todos eles judeus, escolhidos por um Messias judeu que chamou Yerushalaim de a cidade santa e que declarou não ter vindo abolir nem um yud ( a menor letra da Torah) e nem um traço (elemento de ligação entre as letras) se transformou numa organização global que nega quase todos os valores do judaísmo?

 

Estamos nos interrogando como surgiu esta potência avassaladora, a Igreja Católica Apostólica Romana a quem os crentes modernos, apesar de sua sinceridade, de sua redenção pelo sangue do Messias e de sua fé inquebrantável naquele que “nos salvou não segundo às nossas obras, mas segundo a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Yeshua há Maschiach antes dos tempos eternos,” (1 Timóteo 1:9) ainda devem mais do que sabem e mais dp que normalmente estão dispostos a admitir. Igreja Católica Apostólica Romana e do sistema de culto, crenças e adoração que ela chamou de cristianismo apostólico.

 

Para responder a essa pergunta é preciso recorrer à história do movimento judaico messiânico do primeiro século, conhecer as suas raízes, o pano de fundo histórico que deu origem ao mais poderoso movimento religioso de todos os tempos, o cristianismo. É preciso deixar de lado a história recontada pela Igreja Católica Apostólica Romana a fim de descobrirmos que  há uma diferenciação enorme entre o tronco (judaísmo messiânico) erguido no primeiro século e o galho, o cristianismo romano surgido no quarto século. Fazendo isso constataremos que chegou a hora de todos nós, crentes iluminados pela palavra de assumirmos outra identidade, não a nova identidade surgida no quarto século, mais dos crentes do primeiro século.

 

 

Todos os Crentes em Yeshua se Chamavam de Fato Cristãos?

 

Estamos acostumados a identificar os seguidores do Messias, redimidos e salvos pela graça salvadora do Pai através de seu sangue simplesmente como cristãos. Esta tem sido a forma como a maioria dos grandes e médios movimentos se identifica em todos os lados. Aqui no Ocidente é a uma convicção que todos os seguidores de Yeshua no primeiro século se identificavam pelo termo grego cristãos. Isso é natural. Com nossos olhos voltados para o nosso próprio umbigo e ignorando a força avassaladora da Igreja Católica Apostólica Romana sobre o pensamento ocidental nem nos ocorre sequer imaginar que os crentes messiânicos do oriente onde nasceu a nossa fé pudessem se chamar outra coisa além de cristãos ou se basearem noutro “original” do Novo Testamento que não seja em grego. Assim, a maioria dos crentes se declara parte da cristandade.

              

No ocidente a exceção contraditória são os nossos irmãos testemunhas de Jeová que paradoxalmente se declaram genuínos cristãos ao mesmo tempo em que se declararam separados da cristandade, ainda que nesse caso, seu posicionamento segregacionista está longe de ser adequado, uma vez que o sangue de Yeshua nos tornou irmãos na mesma redenção, apesar das minudências que nos separam. Mais recentemente o movimento judaico messiânico vem atraindo os judeus crentes em Yeshua que até então viviam na sua maioria nas igrejas cristãs à uma identidade distinta, o judaísmo messiânico, e que não obstante é vista pela igreja cristã como um movimento novo, de judeus que amam a Yeshua mas não conseguem se desprender de suas tradições milenares.

 

Do Oriente, mais especificamente da Índia, tomamos conhecimento da existência do povo הינענכ  kenanayah, um povo endogâmico (que se casa apenas dentro de seu clã), que se identifica como a seita judaica dos zelotes que se converteu em massa a Yeshua depois da destruição de suas comunidades pelo exército romano e que fugiu para a índia no ano 343 perseguido nem mais nem menos do que pela Igreja Católica recém surgida.

Eles mantém a tradição de que 72 famílias, sendo perseguidas por que se negaram a mudar a data da celebração do pessach e a renunciar outros costumes judaicos fugiram para a Índia indo aportar nas costas de Malabar, no atual estado de Kerala onde praticaram o judaísmo, e cultivaram o uso do hebraico e do aramaico de seus antepassados até a chegada dos portugueses e sua inquisição que os obrigou a abandonar a língua, os rituais e as praticas da Torah. A comunidade hoje reduzida a cerca de 60 mil pessoas sobreviveu, apesar das perseguições, graças ao casamento endogâmico.

 

Na mesma Índia outro grupo de crentes em Yeshua que reivindica seu surgimento no primeiro século graças a pregação de Tomah, o apóstolo de Yeshua também chamado de o Gêmeo são os nasrani de Kerala. Tomah havia ido à Índia para converter os judeus de Cochin, israelitas que haviam chegado à índia nos dias de Shlomo há Melech, 900 anos antes. O fato de terem sido fundados por um dos doze, de terem tido forte influência judaica entre eles em seus primórdios de se chamarem a si mesmos de nasrazni (nazarenos), em vez de cristãos, nome que se dão a si mesmos até ao dia de hoje é uma prova indeclinável de que os crentes judeus do primeiro século não se chamavam cristãos, mas nazarenos, tal como as provas que serão demonstradas mais tarde nesse artigo.

 

Esse fato prova que o termo cristãos foi tipicamente ocidental, e mais ainda próprio da igreja greco-romana. Os nasrani, que são cerca de 6 milhões uns 12% da população de Kerala se mantiveram dentro dos marcos estritos do judaísmo até ao quarto século quando caíram sob o domínio do patriarcado da Pérsia, já fortemente influenciado por Roma. A partir daí o judaísmo foi sendo gradualmente abandonado, acabando por morrer com a chegada dos portugueses e a proibição das liturgias em aramaico e hebraico. No entanto, até ao dia de hoje, restaurada a liberdade de culto com o fim da pressão da inquisição, a liturgia da igreja nasrani mistura o malayalam que é uma das línguas nativas do kerala com o siro-aramaico adotado ainda nos dias de Tomah, o apostolo de Yeshua e seu glorioso fundador.

Porque iniciamos o presente estudo sobre a trajetória dos crentes de Jerusalém para Roma justamente por sua identidade? A razão é simples, a maioria esmagadora dos crentes, algo como 99,99% deles, ou talvez mais está convencida de que Yeshua veio para fundar uma nova religião, o cristianismo, e que cristão é a melhor definição de seguidor de Yeshua. 

 

 

Yeshua o Nazareno

 

         Como sabemos o termo nazareno deriva do hebraico נָצַר netzar e do aramaico netzarayah que significa broto ou rebento e ainda guardar e manter. Sua raiz está relacionada com a palavra hebraica נָזִר nazir que significa separado ou consagrado, algo que tem tudo a ver com o Messias que Ra separado e santificado como nenhum outro homem que tenha vivido ou que venha a viver e com seus seguidores que são chamados ser separados do mundo. A Brit Chadashá diz que Yosef, avisado em sonhos retirou-se para Netzaret, a fim de que Yeshua pudesse ser chamado apropriadamente de nazareno.

 

“E depois de ter sido avisados ​​em sonhos, retirou-se para o distrito da Galiléia. Lá, ele fez sua casa em uma cidade chamada Nazaré, de modo que o que fora dito pelos profetas pudesse ser cumprido, "Ele será chamado de Nazaré."

 

         Críticos da fé em Yeshua como Maschiach dizem que a declaração não procede por que nenhum profeta mencinou a frase “ele será chamado netzar ou nazareno. O que eles ignoram aqui é o fato de que é comum aos interpretes e escritores judeus se referirem não apenas ao que os profetas falaram literalmente no pashot, mas também aquilo que falaram em remez ou dica, em drash ou metáfora e mesmo em sod, ou nível oculto. Isso os judeus sabem, pois o método está presente em toda a literatura rabínica, só que preferem fazer vistas grossas a fim de depreciarem a fé em Yeshua.

 

         E bem, vários profetas mencionaram o surgimento da raiz de Yshay (Jessé).  Um deles foi Yirmiahu.

         Brotará uma vara do tronco de Yshay, e um ramo brotará das suas raízes. Ve · ya · · tza cho ter mig · ge · za · yi ve shai · ne · tzer mi · sha · ra · · shav yif reh.” Yeshayahu/Is 11:1.

 

Outro detalhe a considerar é que os crentes judeus incluíam outros escritos em seu cânon. Chanok por exemplo é mencionado por Yehudáh como um profeta messiânico que antecipou a vinda do rei nas nuvens. Só que no caso ele mencionou Chanok, e na profecia “ele será chamado nazareno”, se os discípulos se referirem ao nível pashot ou literal estarão mencionado outro profeta cujo nome não nos é revelado. No entanto, Jerônimo que travou contato com os nazarenos no quarto século diz que o escritor se referia à Yeshayahú e que os nazarenos entendiam que o profeta estava fazendo uma insinuação, não uma declaração direta. Tal posição, é compatível com a forma judaica de interpretar as Escrituras.

 

De toda a forma não há duvida alguma de que Yeshua foi chamado Netzary ou nazareno. A prova maior foi sua identificação no dia da execução quando ao ser perdurado no madeiro, Pilatos mandou colocar sobre ele o título real escrito em três línguas que usavam e ainda usam caracteres diferentes, o hebraico, o grego e o latim. Yochanan nos informou sobre isso.

 

“E Pilatos mandou preparar uma placa que foi escrita e pregada numa estaca, onde se lê: Yeshua de Netzeret, o rei dos judeus." Yochanan/Jo 19:19. (Bíblia Judaicam versão do Dr. David Stern)

 

Pilatos não criou um título para a Yeshua. Ele tanto se identificava como era identificado como tal. Ao entrar na Sinagoga de K`far-Nachum o homem possesso de um espírito impuro gritou-lhe:

 

“Ah! O que você quer de nós, Yeshua de Natzaret? Veio para nos destruir? Eu sei que você é o santo de Elohim.” Marcos 4:35

 

Quando os fariseus que não criam nele conspiraram para o prender enviando homens com armas e lanternas, em busca do nazareno o Maschiach se assumiu a si mesmo como o nazareno:

 “Yeshua sabendo tudo o que ia acontecer, saiu e lhes perguntou “A quem vocês procuram?” A Yeshua de Natzaret,” eles responderam. Ele disse: “Sou eu”. Yochanan 18:5. (Bíblia Judaica, Versão do Dr. David Stern).

 

Sabemos ainda que na Estrada de Damasco Yeshua se identificou a si mesmo ao chamar Shaul na língua hebraica dizendo:

 

            “Sou Yeshua de Natzaret a quem tu persegues. “ Atos 22:8.

 

Isso explica por que dentro do judaísmo, os seguidores de Yeshua eram conhecidos pelos membros das demais seitas judaicas como perushim e tsadokim como os integrantes da seita dos netzarim ou nazarenos. Shaul foi acusado de ser uma das “principais pestes” daquele grupo.

 

“Descobrimos que este home é uma peste. Ele é um agitador dos judeus pelo mundo todo e é o líder da seita dos netzarim.” Atos 24:5. (Bíblia Judaica, Versão do Dr. David Stern).

 

 

A Seita Judaica dos Nazarenos – Os Primeiros Messiânicos

 

Bem, já sabemos que Yeshua se identificou como nazareno, que seus seguidores e adversários o tratavam como nazarenos e que até os demônios o nomeavam como tal. Por que então os crentes em Yeshua não são chamados de nazarenos e não se chamam a si mesmos como tais, mas preferem se chamar cristãos, a exceção da Igreja do Nazareno, uma organização metodista com 27,5 mil congregações e 2,13 milhões de membros?

 

Essa é uma pergunta importante por que temos testemunhos insuspeitos de que nos dias de Jerônimo, os judeus crentes em Yeshua não se chamavam cristãos, mas nazarenos e eram vistos com maus olhos pela igreja romanizada.

        

"Mas estes sectários... não se chamam a si mesmos de cristãos, mas de Nazarenos...". (Epifânio; Panarion 29)

A crença dos nazarenos diferia dos cristãos do quarto século não na confiança firme de que Yeshua era o Maschiach e Salvador prometido. O testemunho de Epifanio é ainda mais incisivo. Os nazarenos eram judeus de fé e prática. Teodoreto afirma que os nazarenos rejeitavam os escritos de Shaul. Quando vimos anteriormente através dos nazarenos do oriente essa informação não procede. Os nazarenos do oriente incluíram todas as epístolas de Shaul em seu Canon. Há mais indícios de que os ebionitas (pobres), ou pelo menos parte deles tivesse rejeitado a Shaul.

 

É importante lembrar que Shaul procedia de uma escola judaica que facilitava as coisas para os gentios piedosos, a escola se Hillel, de onde procedeu o grande rabi Gamaliel, instrutor de Shaul. Por sua vez a escola de Shamai afugentava os gentios e considerava que eles estavam sob idênticas obrigações que os judeus se queriam ser considerados piedosos. Ainda que o ponto de vista de Hillel foi acatado por todo o judaísmo, parece que os ebionitas não o aceitaram, e fazendo assim tiveram que rejeitar também a Shaul, já que foi Shaul e não Yeshua que ensinou que os gentios não precisavam cumprir toda a Torah. 

 

Como netzarim eles tinham uma crença comum e sustentavam que Yeshua era o Maschiach, mas paralelamente a isso guardavam a Torah de Moshe, com seus dias de guarda e observavam rigidamente a circuncisão:

 

“Eles não têm ideias diferentes, mas confessam tudo exatamente como a Lei proclama e na forma judaica - exceto por sua crença no Maschiach a seu favor! Porque eles reconhecem tanto a ressurreição dos mortos e a criação divina de todas as coisas, e declaram que Elohim é um, e que seu Filho é Yeshua há Maschiach.” -Epifânio de Salamis, Panarion 29.7.2

 

“Eles discordam com os judeus, porque eles vieram à fé em Cristo, mas como eles ainda estão acorrentados pela lei - a circuncisão, o sábado, e o restante - eles não estão de acordo com os cristãos.” -Epifânio de Salamis, Panarion 29.7.4

 

“Eles usam não apenas o Novo Testamento, mas o Velho Testamento, assim, como os judeus fazem.” -Epifânio de Salamis, Panarion 29.7.2

 

“Eles têm bessorat há Mattay (Evangelho segundo Mateus) em sua totalidade em hebraico. Pois é claro que eles ainda preservam esta, no alfabeto hebraico, como foi originalmente escrito.” - Epifânio de Salamis, Panarion 29.9.4

 

Quanto aos costumes Jerônimo se confundia em como classificar os nazarenos, não os considerava judeus por que acreditam em Yeshua e não os considerava cristãos por que eles criam em Moshe.

 

“Que direi dos ebionitas que fingem ser cristãos? Para estes dias  ainda existem entre os judeus por todas as sinagogas do Oriente uma heresia que é chamada de Minaeans (hereges), e que ainda é condenada pelos fariseus; [seus seguidores] são normalmente chamados de "Nasarenos ', pois eles acreditam que o Maschiach, o filho de Elohim, nasceu da Virgem Maria, e mantém que ele padeceu sob Pôncio Pilatos, e subiu ao céu, e no qual também acreditamos. Mas enquanto eles fingem ser tanto judeus como cristãos, eles não são.” (Citado em Jewish Encyclopedia a partir de Ep. LXXXIX. Anúncio Augustinum).

 

Por outro lado ele nos revela uma coisa surpreendente, os nazarenos tinham suas sinagogas, ou secretamente mantinham sua fé em Yeshua dentro das sinagogas de seus irmãos judeus que então os chamavam de min, que era o termo comum para todos os tipos de hereges.

 

Bem, estes testemunhos confirmam uma cisão entre os seguidores de Yeshua, e confirmam que os judeus que criam em Yeshua não se apresentavam como cristãos, mas como nazarenos, e que os tais eram cumpridores da Torah e que conservavam o texto hebraico de Matytyahu ou Mateus. Isso tudo nos leva de volta ao título desse tópico: por que hoje os crentes em Yeshua se declaram cristãos? Claro que essa não é toda a questão. Mas comecemos por ela.

 

 

Cristãos ou Chamados Cristãos?

 

O termo cristão é mencionado apenas três vezes na Brit Chadashá ou Novo Testamento. Lemos no livro de Atos que “em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos." (Atos 11:26). Ora, As escrituras nem mesmo dizem que eles se chamaram cristãos, mas que eles foram chamados de cristãos. Desde logo uma coisa é ser chamado cristão por alguém que não é judeu, que mora fora de Israel e outra coisa é um judeu chamar-se a si mesmo cristão dentro de Israel.

 

O texto aqui referido mostra que nem os crentes se chamaram a si mesmo cristãos e mais do que isso, que eles foram chamados como tais pelos gentios que viviam fora de Israel. Ora Antioquia era uma cidade grega, atualmente sob domínio turco e localizada a 310,59 milhas (499,83 km) de Yerushalaim.  Ali por primeira vez os seguidores de Yeshua foram apelidados de cristãos. Bom, raramente se discute sobre isso.

 

A palavra cristão está cristalizada na mente do povo, e se imagina que a palavra grega Cristos seja apenas a tradução da palavra hebraica Maschiach. Isso em parte é verdadeiro. Um sacerdote pagão, consagrado ao serviço de seus deuses nos templos era de fato chamado de Cristos. Ao traduzir o Novo Testamento do aramaico para o grego no quarto século entendeu-se que a palavra seria a ideal. Por nosso lado recomendamos o emprego do original hebraico Maschiach (askenazi Moshiach), de sua tradução para o português Ungido ou então Messias, palavra portuguesa hebraica relacionada com o inglês Messiah (Messaia).

 

 Por outro lado, toda a vez que sabemos que a palavra Cristo não é a mais adequada para nos referirmos a Yeshua, deve ficar subentendido que é recomendável que os crentes em Yeshua prefiram também se chamar nazarenos ao se identificar com Yeshua ou messiânicos para demonstrar sua fé em Yeshua. Aliás, era exatamente dessa forma que eles se chamavam até pelo menos o século VII quando surgiu o islamismo e o Al Kuran que declara:

“Os judeus dizem que os nazarenos (Nasara) não são nada, e os nazarenos (Nasara) dizem que é os judeus que não são nada. No entanto, ambos leem o Livro. E aqueles que não sabem dizer como a sua palavra. Alah julgará entre eles as suas disputas no Dia da Ressurreição.” Hassan Al-Fathi Qaribullah Alcorão Tradução, 2:113. AL-113 Baqara

 

O que queremos deixar claro é que o cenário religioso dos primeiros dois século exclui a existência do catolicismo e por conseguinte da fé que ele sustenta, o cristianismo, declarado por Constantino a religião oficial e única do Império. O fato de que os reformadores do século XVI, apesar de mudarem muitos dos aspetos da religião católica não tivessem se preocupado em mudar sua senha de identificação se deve ao fato de eles promoveram a Reforma, a mudança e melhora da Igreja, mas deixaram de lado a Restauração que Adonay reservou para nossos dias.

 

 

Não Havia Relações Judaico Cristãs no Primeiro Século

 

Ora, é preciso que se diga que no primeiro século não se falava da relação entre cristãos e judeus. Com isso não estamos negando de forma alguma a existência de Yeshua há Maschiach e de seus milhares de seguidores. Não permita Elohim que digamos ou nem mesmo pensemos semelhante blasfêmia. Na verdade o que estamos afirmando é que a melhor forma de negar a essência da obra de Maschiach é supor que haviam azedas relações judaico-cristãs, e que os cristãos do primeiro século estavam enfrentando o judaísmo como precursores da Igreja que lhe declararia guerra e que perseguiria os judeus em nome de Jesus como parte de uma missão sagrada cujos frutos últimos foram colhidos na Alemanha Nazista.

 

Dizer que havia um conflito entre judeus e cristãos no primeiro século nega os fatos por que o cristianismo como força política e braço do Estado Romano ainda não havia surgido no cenário da história quando nazarenos, zelotes, saduceus e principalmente fariseus se enfrentavam acerca da identificação ou não de Yeshua como Messias. Todos estes debates se estabeleceram à sombra do Templo e sob o teto das sinagogas ou Beit Knesset da Judéia

Yeshua era um judeu, descendente biológico de David, circuncidado ao oitavo dia, apresentado no templo mediante os sacrifícios. Ele ia à Sinagoga a cada shabat, tomava parte nas parashot (porções semanais da Torah) e das haftarot (leitura dos profetas). Ele era um praticante da Torah, celebrava o Pessasch e não a páscoa romana, participava do shacharit não da missa dominical. Quando curava um leproso ordenava que ele se mostrasse ao sacerdote para que ele lhe declarasse limpo. Quando entrava no Templo se enchia de zelo pela santidade daquele lugar. Quando encontro os cambistas no Templo, virou as mesas, os expulsou dizendo: “Não façam da Casa de Meu Pai uma casa de venda”. 

 

O que se diz em relação a Yeshua tem de ser dito também em relação a seus seguidores que eram apenas judeus frequentadores assíduos da sinagoga e do Templo. O conceito de que os discípulos sendo judeus se tornaram “cristãos”, uma palavra grega, e passaram a viver como gentios de costas voltadas para o templo não se sustenta de forma alguma. As Escrituras dizem que os primeiros seguidores de Yeshua perseveravam diariamente  unânimes no templo”. Atos 2:47. Mostram ainda que eles iam ao Templo nas horas regulares de oração.   Para todos os efeitos não há como se dizer que os discípulos eram cristãos, a menos que cristianismo significasse judaísmo, mas os cristãos em geral supõem que o cristianismo tem pouco a ver com o judaísmo exceto na crença nos mesmos profetas. Assim, pelo próprio testemunho das Escrituras se conclui que os crentes do primeiro século não eram cristãos como hoje se supõe, mas judeus praticantes crentes em Yeshua.

 

Embora essa revelação produza o feito de um choque pós-traumático sobre muitos crentes, tal trauma pode ser necessário para o resgate da verdadeira história e da verdadeira identidade da kehilah de Maschiach (Igreja do Messias). Na verdade o cristianismo é um movimento que surge no final do segundo século, subserviente aos interesses dos governantes e que vai lentamente sufocando o movimento nazareno ou messiânico que inicialmente era liderado por judeus tão aferrados ao templo e à sinagoga como qualquer outro segmento.

Sim o movimento nazareno surgiu à sombra do templo. Lugar amado por todos os judeus fossem  צְדוּקִים  tsadokim (saduceus),   םיאנק zelotes como Kefa ou םישורפ perushim (fariseus) da Beit Hillen (Casa de Hillel) como Shaul ou Paulo que se opunham aos outros fariseus  os da Casa de Shamai. Estes grupos apesar de sua rivalidade acérrima na interpretação das Escrituras, rivalidade que as vezes degenerava em luta armada e assassinatos, eram um só em defesa do Templo como local sagrado,

 

Isso à exceção dos essênios que acreditavam na santidade do templo, mas não em seus sacerdotes, especialmente no principal deles que chamavam o mestre da iniquidade, razão pela qual não o visitavam. Segundo eles, o kohem há gadol, o sumo sacerdote havia maculado o lugar santo e conspurcado seus rituais por não ser um legítimo descendente de Tzadok, o descendente de Aharaon escolhido por Adonay para o sacerdócio, mas um político traidor à serviço do odiado Império Romano.

 

Ou seja, os messiânicos ou nazarenos eram uma seita judaica, nascida à sombra do Templo e nada mais do que isso. No entanto, os crentes em Yeshua como Messias eram apegados a tudo o que está escrito na Torah e nos profetas (Atos 24:14) e como seguidores de Yeshua viam o Beit Há MIkdesh como a casa de seu pai tal como Yeshua a chamava (Yochanan/Jo 2:16) e a Yerushalaim como a cidade do grande rei em cujo nome não se devia jurar (Tehilim/Sl 48:2, Matytyahú/Mt 5:34), pois era a cidade santa (Yeshayahú/Is 52:1 Nehemiah/Ne 11:1 Matytiahú/Mt 27:52).

 

Estes crentes subiam regularmente ao templo para orar na hora nona (Atos 3:1) como qualquer israelita o faria, e permaneciam unidos em torno do Templo (Atos 2:26), pois para eles a santidade daquele lugar não tinha desaparecido por causa da infidelidade de alguns. Por essa razão crentes messiânicos iam ao templo, pagavam votos e ofereciam sacrifícios. (Atos 21). Ou seja, no primeiro século judeus crentes em Yeshua eram vistos apenas como mais uma seita que se somava às quatro já existentes, fariseus, saduceus, essênios e zelotes.

Por isso muitas vezes os nazarenos ou messiânicos partilhavam as mesmas sinagogas. (Atos 13:6, 14) Nessas oportunidades partilhavam de todos os direitos não só de visitantes, mas de leitores da Torah e de mestres da palavra como parte do mesmo povo (Atos 13:15, 42 e 18:19-20), impressionando e fazendo discípulos para o Messias dentro de um contexto judaico e não para atraí-los a uma nova religião, até por que essa religião ainda nem mesmo existia.

 

Por essa razão Shaul fazia questão de se declarar que era judeu (Atos 18:10) religioso, um fariseu, filho de fariseus (Atos 23:6). Logo se existe uma coisa acerca do qual se pode falar com absoluta certeza e de que os cristãos tal como o conheceríamos a partir do quarto século em sua doutrina e em sua visão não tinham qualquer relação com as descrições dos evangelho, do livro de Atos ou das cartas de Shaul. As relações judaico cristãs só surgiriam definitivamente 300 anos depois quando Roma, senhora da fé de seu povo decide apoiar os bispos apóstatas de Roma e seus aliados.