Charles Spurgeon e a Restauração Nacional de Israel

 

Rosh Baruch Ben Avraham

O pensamento de Charles Hadon Spurgeon (1834-1892), o mais famoso de todos os pregadores batistas, e um dos maiores pregadores dos tempos modernos, não deve ser considerado decisivo por ninguém e em nenhum ponto. Pelo menos não era isso o que ele, um homem que se erguia de pé para proclamar a Bíblia como regra de fé desejava. Mas apesar de tudo não deixa de ser importante.[1]  

 

Um dos maiores pregadores que a história já conheceu, Spurgeon pregou para cerca de 10 milhões de pessoas ao longo de seu profícuo ministério iniciado pouco depois de sua conversão ocorrida em 6 de Janeiro de 1850. Filho de pais puritanos, Spurgeon abraçou o batismo por imersão sendo unido à Igreja Batista em 3 de maio de 1850 na congregação de Newmarket. Sua primeira missão foi a distribuição de folhetos. Em outubro de 1851 aceitou o o convite para pregar na Congregação Batista de Waterbeach, ao norte de Cambridge levando a igreja a rápido crescimento. Em janeiro de 1852 aos 17 anos de idade aceitava o pastorado efetivo nessa congregação.

 

O grande passo viria logo a seguir quando atuando como orador na União de Escolas Dominicais foi ouvido por George Gould diácono em Essex, que impressionado contou sobre ele ao Diácono Thomas Olney, da Capela de New Park Street em Londres, uma das mais importantes da Inglaterra. A capela era na verdade uma das maiores igrejas de toda a Inglaterra, tinha acomodações para 1200 lugares, mas sua membresia estava estancada em 232 almas. O Diácono da igreja, que não tinha pastor efetivo, o convidou a pregar na Capela em dezembro de 1853.

Desejosos de ter um pastor, os membros da New Park Street o convidaram como pastor em teste por seis meses. Era fevereiro de 1854. Dois meses depois Charles Spurgeon, com apenas 19 anos de idade era o pastor da igreja, cargo que ocuparia até o declínio de sua saúde em 1891.

 

Em 1858, depois de quatro anos de ministério a frente da comunidade o grupo havia se multiplicado dezenas de vezes. A capela já não cabia seus membros nem em quatro cultos sucessivos. Os acessos ao lugar estavam abarrotados de carros e cavalos. A igreja estava convencida que uma reforma do prédio não era suficiente, e logo a capela foi demolida, e um novo prédio, o Tabernáculo Metropolitano com capacidade para 12.000 pessoas foi inaugurado em 1861.

 

Dali, defendendo-se das acusações se acreditar que a salvação dependia em parte do homem e em parte do Criador (arminianismo) ele pregou numerosos sermões onde instava os pecadores ao arrependimento e à conversão, mas de tal sorte que estes eram convencidos de que tudo aquilo não era senão o eco da graça soberana que rompe e quebra o livre arbítrio, o despedaça e o leva cativo em glorioso cativeiro.

 

Spurgeon deixava pouco espaço para a escatologia em sua teologia, seus sermões eram devocionais e de apelo ao pecador para que se arrependesse e aos santos para que mantivessem uma vida de fé e obediência à luz do que conhecia. O citarei aqui nesse particular, justamente por sua escatologia que significou um rompimento com a escatologia tradicional dos batistas, um rompimento tal, que ele, sem jamais deixar de ser identificado como batista se viu forçado a se separar da União Batista em 1897, cinco anos antes de sua morte.

 

Em primeiro lugar é importante notar que para Spurgeon não havia nada de mítico ou de figurado nas profecias que dizem respeito à vinda de Yeshua. O reino haveria de ser literal e seria exercido na terra e sobre a terra.

“Yeshua não está vindo em num forma mítica, na forma de uma neblina nebulosa, ele está vindo literalmente, ele está vindo realmente, e ele vai vir literalmente e realmente e vem para chamá-lo a dar conta de sua mordomia.” Spurgeon, "The Ascension and Second Advent Practically Considered," MTP, 31:23.

 

Spurgeon cria não só numa vinda literal de Yeshua, mas num reino literal sobre sua própria terra Israel, e sobre seu próprio povo, os judeus.

 

“Esperamos um Messias reinando na Terra; que nos parece ser muito simples, e colocar tão literalmente que não ousamos espiritualizá-lo. Prevemos uma primeira ressurreição e a segunda,. Uma primeira ressurreição dos justos, e uma segunda ressurreição dos ímpios, que devem ser julgados, condenados e punidos para sempre pela palavra do grande Rei.” (Spurgeon, "Things to Come," MTP, 15:329.)  

 

Para ele, o Reino do Messias será exatamente o que os judeus sempre pensaram sobre ele, um reino físico e temporal, que apesar de transcender o espaço tempo ainda assim terá um rei como eles esperavam e eles serão uma nação em destaque dentro da comunidade das nações.

 

“Se lermos bem a Escritura os judeus têm muito a ver com a história deste mundo. Eles serão reunidas quando o Messias vier. O Messias que eles estão procurando-o Messias que veio, mesmo depois virá novamente, virá à medida que esperavam que ele viesse pela primeira vez. Eles, então, pensavam que ele viria como um príncipe que reinasse sobre eles, e assim ele vai ser quando vier novamente. Ele virá para ser o rei dos judeus, e reinar sobre o seu povo mais gloriosamente, pois quando ele vem judeus e gentios terão privilégios iguais, embora haja hoje e ainda deve haver alguma distinção conferida a essa família real de cuja lombos Yeshua procede, pois ele se assentará sobre o trono de seu pai David, e até ele serão reunidas todas as nações.” (Charles Hadon Spurgeon, 8 de Março de 1857, New Park Street Chapel, Southwark).

 

Vemos assim, que ao contrário dos amilenistas que dizem que as profecias relativas à volta de Yeshua eram espirituais, e nunca se cumprirão como os judeus carnalmente as interpretaram, Spurgeon cria que os judeus encontrarão o Messias quando ele se revelar a eles exatamente como eles o esperaram e como as profecias literalmente apontam como um rei para se assentar no trono de David:

 

Bem, essa é exatamente a profecia trazida pelo anjo a Miriam por ocasião do nascimento de Yeshua. “Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Elohim lhe dará o trono de David, seu pai.” Lucas 1:32 Num sermão proclamado em 1855 na Capela de New Park Street em Londres, ao início de sua obra ele declarou que as tribos de Israel voltarão, e talvez o próprio Templo também seja restaurado e que o Messias descerá com os seus sobre Tzion:

 

“A hora se aproxima, quando as tribos subirão ao seu próprio país, quando a Judéia, desde um deserto uivante, deve florescer mais uma vez como a rosa, quando, se o templo em si não for restaurado, ainda próprio no monte de Tzion deve ser levantado algum edifício messiânico, onde os cânticos de louvor solene devem ser escutados como nos antigos tempos eram cantados os Salmos de David no Tabernáculo.. . Acho que não damos importância suficiente para a restauração dos judeus. Nós não pensamos o suficiente sobre isso. Mas, certamente, se há algo que a Bíblia prometeu é isto. Imagino que você não pode ler a Bíblia sem ver claramente que deve haver uma restauração real dos Filhos de Israel. . .Para quando os yehudim sejam restaurados, a plenitude dos gentios será alcançada; e tão logo eles voltarem, então Yeshua virá gloriosamente sobre o Monte Tzion com os seus anciãos, e os dias felizes do milênio devem então começar... O Messias reinará com influência universal.” (Charles Hadon Spurgeon, "The Church of Christh - A Igreja do Messias " Publicado em 03 de junho de 1855 em New Park Street Chapel, Southward)

Como vimos, Spurgeon não só cria na vinda do Messias sobre o Monte Tzion, mas na reedificação do Templo, embora não soubesse como funcionaria. Ele estava convencido de que o fato dos judeus no passado em grande parte terem resistido a Yeshua não diminuía o poder dessa promessa e muito menos a aniquilava. Ele pregaria mais tarde no grande

 

“Mas o dia está chegando, sim já amanhece, quando o mundo inteiro deve discernir a verdadeira dignidade da semente escolhida, e devem procurar sua companhia, porque o Senhor a abençoou. No dia em que Israel deve olhar para ele, a quem traspassaram, e se lamentar por seus pecados, o judeu deverá tomar sua posição verdadeira entre as nações como um irmão mais velho e um príncipe. A aliança feita com Avraham, para abençoar todas as nações por sua descendência, não é revogada; o céu e a terra passarão, mas a nação escolhida não deve ser apagado do livro da memória. Adonay não tem rejeitado o seu povo, ele nunca deu a sua mãe uma carta de divórcio, ele nunca os colocou fora, em um pouco de ira ele tem escondido deles o rosto, mas com grandes misericórdias quer reuni-los. Os ramos naturais devem ser novamente enxertados na oliveira em conjunto com o implante de enxertos de oliveira selvagem, dentre os gentios. Os yehudim (judeus), primeiro e principalmente, devem abrilhantar a vitória através do Rei dos Judeus. O tempo, voará com asas tão rápidas, e trará este auspicioso dia.” (Charles Hadon Spurgeon, Once a Curse But Now a Blessing” 6 de Dezembro de 1863, The Metropolitan Tabernacle, Newington).

 

Spurgeon era um batista regular ou puritano, mas era um batista. Não estava pronto para guardar o shabat e para celebrar as festas, e não creio que os considerasse necessários para seu tempo, caso contrário não seria tolo a ponto de não celebrá-las. No entanto, o Pastor Spurgeon que admitia um Templo físico sobre o monte Tzion admitia também que durante o Reino Messiânico, estas celebrações podiam voltar, ainda que devessem ser celebradas de forma diferente do que então se conhecia. Isso deixou claro num sermão publicado um ano mais tarde quando disse:

"Pode até haver naquele determinado período assembléias solenes e sábados, mas eles não serão da mesma espécie, como temos agora."  (Charles Hadon Spurgeon, The Lamb – The Light O Cordeiro – A Lâmpada, The Metropolitan Tabernacle, Newington,  31 de julho de 1864)

 

O senhor Spurgeon foi batista até o fim de sua vida, mas seu ministério se desligou da União Batista na esteira do que ficou conhecido como a Down-Grade Controversy iniciada em 1887 em que Spurgeon denunciava o liberalismo, o antinomismo, o arminianismo, a espiritualização na interpretação das profecias e o amilenismo humanista que proclamava progressiva melhora do mundo sob um reino espiritual regido por um Messias invisível.

 

         “Se eu ler a palavra corretamente, serei honesto para admitir que há muito espaço para diferenças de opinião aqui, o dia virá, quando o Adon Yeshua  descerá do céu com alarido, e com a trombeta do arcanjo e com a voz de Elohim. Alguns pensam que esta descida do Senhor será pós-milênio, isto é, após os mil anos do seu reinado. Eu não posso pensar assim. Eu concebo que o advento será pré-milenar; que ele virá em primeiro lugar; e depois virá o milênio como o resultado de seu reinado pessoal sobre a terra.” (Reverendo Charles Hadon Spurgeon, A Justificação e a Glória, Citado por Dennis M. Swanson bibliotecário-chefe e diretor de Israel Estudos do Mestre Seminário  Sun Valley, California). http://www.spurgeon.org/misc/eschat2.htm#note12).

 

         A doutrina cristã amilenista diz que haverá um milênio de relativa calma e tranquilidade nesse mundo quando a Igreja poderá pregar o evangelho e resgatar muitas almas por que o Messias estará reinando espiritualmente, não num lugar determinado da terra, mas no mundo celestial a fim de conceder poder a seu povo, e que findo esse período ele busca a igreja para viver eternamente no novo céu e na nova terra. Aqui é preciso que se diga que Charles Spurgeon esteve à frente de sua época em vários pontos. Apesar de seu forte apego à teologia reformada soube dizer não ao amilenismo.

 

         Ora o milenismo afirma que a volta de Maschiach envolve sua descida literal para um reino literal e milenar sobre a Terra. O Senhor Spurgeon soube, pois se distanciar da teologia convencional que espiritualizava as promessas do reino a ponto de colocá-lo no céu distante quando as Escrituras são claras em dizer que os santos reinarão sobre a terra. Charles Spurgeon também soube deixar claro que os judeus não haviam sido rejeitados, que a Casa de Yehudá jamais recebera uma carta de divórcio liberando-a dos compromissos e dos favores de seu Eterno marido, Adonay Tsevaot.

 

            “Haverá um governo nativo novamente; haverá novamente a forma de um corpo político, um Estado deve ser incorporado, e um rei reinará. Israel tornou-se alienado de sua própria terra. Seus filhos, embora eles nunca se pode esquecer o pó sagrado da Palestina, ainda morrem a uma distância impossível de suas costas consagrada. Mas não será assim para sempre, para seus filhos deve a alegrar-se nela: a sua terra será chamada Beulah, pois, como um jovem se casar com uma virgem assim será seus filhos se casar com ela. "Vou colocá-lo em sua própria terra", é a promessa de Deus para eles. . . Eles devem ter uma prosperidade nacional que deverá torná-los famosos, ou melhor, tão glorioso eles serão que o Egito, e de Tiro, e da Grécia, e Roma, todos devem esquecer a sua glória na maior esplendor do trono de David. . . Eu não ser nada simples e claros, o sentido literal eo significado dessa passagem [Ezequiel 37:1-10], um significado para não ser espirituoso ou espiritualizada longe tem de ser evidente que ambos os dois e os dez tribos de Israel são ser restaurado para sua própria terra, e que é um rei para governá-los. (Charles Hadon Spurgeon A Restauração e conversão dos judeus" emitido em 16 de junho de 1864 no Tabernáculo Metropolitano, Newington.)

 

         Isso tudo se chocava com a doutrina cristã amilenista que diz que haverá um milênio de relativa calma e tranquilidade nesse mundo quando a Igreja poderá pregar o evangelho e resgatar muitas almas por que o Messias estará reinando espiritualmente.

         Este reino espiritual não seria exercido de um lugar determinado da terra, mas no mundo celestial a fim de conceder poder a seu povo. Ainda segundo os amilenistas findo esse período Yeshua viria fisicamente para busca sua igreja para viver eternamente no novo céu e na nova terra. Spurgeon se opunha a tudo isso. Ele estava convencido de que sem a intervenção de Yeshua o mundo continuaria a envelhecer a e a piorar até à completa depravação e que sua ascensão por outro lado só era possível mediante a sua intervenção. Spurgeon rejeitava a interpretação metafórica das Escrituras que naquele tempo envolvia a Igreja Batista na Inglaterra bem como crentes de outras confissões em distintos países.

 

         A controvérsia culminou em 1891 com a divulgação de uma confissão de fé de batistas puritanos. Entretanto aqui é preciso que se diga que Charles Spurgeon, a frente de sua época em vários pontos, e apesar de seu forte apego à teologia reformada soube dizer não ao amilenismo sustentando o mlilenismo.

 

         Ora o milenismo afirma que a volta de Maschiach envolve sua descida literal para um reino literal e milenar sobre a Terra. O Senhor Spurgeon soube, pois se distanciar da teologia convencional que espiritualizava as promessas do reino a ponto de colocá-lo no céu distante quando as Escrituras são claras em dizer que os santos reinarão sobre a terra.

 

         Os artigos aqui citados foram retirados da página The Spurgeon Archive. Charles H. Spurgeon and the Nation of Israel, A Non-Dispensational Perspective on a Literal National Restoration (Charles H. Spurgeon e a Nação de Israel, Uma perspectiva não dispensacionalista numa restauração literal e nacional). Um trabalho de Dennis M. Swanson Bibliotecário-chefe e diretor de Estudos Israelenses Seminário do Mestre Sun Valley, Califórnia: http://www.spurgeon.org/misc/eschat2.htm

 

 



[1] Fonte: Charles Hadon Spurgen, Fotografia publicada antes de 1º de Janeiro de 1923, e portanto em domínio público nos Estados Unidos. Fonte: Wikipedia, Wikimedia Commons. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Chosose.jpg