A Polêmica Sobre o Corte de Cabelo à Luz das Escrituras

 

Rosh Baruch Ben Avraham

 

As ramificações mais radicais da Igreja de Deus do Sétimo Dia acrescentam à sua lista de proibições o corte do cabelo para a mulher, apesar de não verem qualquer problema no homem cortar a barba ou raspar o bigode. Esquecem estes que a palavra menciona claramente a unidade dos irmãos como se fossem os fios da barba de Aharon unidos pelo azeite que desce sobre ela.

 

No confronto com a Igreja de Deus Universal os membros da Igreja de Deus do Sétimo Dia tendem naturalmente a apontar o comportamento de Loma Armstrong como demasiado libertino por cortar seus cabelos. Nada mais natural, posto que algumas das Igrejas de Deus do Sétimo Dia nem mesmo permitem que suas mulheres aparem os cabelos. Um contraste claro com a Igreja de Deus Universal onde a própria matriarca do grupo gostava de exibir seus grisalhos devidamente aparados.

 

A pose da matriarca da Igreja de Deus Universal pode ser uma atitude chocante para grupos protestantes radicais, no entanto é preciso reconhecer que as Escrituras em lugar algum dizem que é pecado a mulher cortar seus cabelos. A única referência encontrada nos escritos de Shaul é que é honroso a mulher ter cabelo crescido, mas isso nada diz contra a mulher cortar o cabelo em si. Acerca dessa questão a Torah já se pronunciou ao falar do voto do ריזנ nazir que pode ser feito por homens e mulheres igualmente e que consiste em raspar o cabelo como oferta ao Eterno.

 

Quando homens ou mulheres fazem o voto de nazir o cabelo crescerá durante todo o período que durar o voto, sendo cortado ao final do tempo autodeterminado pelo votante. A regulamentação desse voto por si só é uma pá de cal na pretensão de qualquer grupo em proibir que a mulher raspe o seu cabelo se o desejar. A Torah deixa claro que o homem ou mulher só estão proibidos de raspar sua cabeça durante os dias que durarem sua consagração como nazir.

 

“Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando alguém, seja homem seja mulher, fizer voto especial, o voto de nazir, a fim de consagrar-se para YHWH... Todos os dias do seu voto de nazireado não passará navalha pela cabeça; até que se cumpram os dias para os quais se consagrou a YHWH, santo será, deixando crescer livremente a cabeleira.... O nazir, à porta da tenda da congregação, rapará a cabeleira do seu nazireado, e tomá-la-á, e a porá sobre o fogo que está debaixo do sacrifício pacífico.” Bamdbar/Nm 6:2, 5, 18.

 

Naturalmente, em caso tal, quando a mulher estiver com a cabeça raspada, sua cabeça deve ser coberta com um véu. Quanto aos outros casos, aqueles em que a mulher corta seus cabelos não há nada na Torah que se oponha a isso. Claro que radicais dirão que se cabelos fossem para cortar não cresceriam. Um argumento interessante se esses homens fossem judeus ortodoxos e deixassem crescer os peot de seus cabelos indefinidamente.

 

No entanto esses mesmos homens vão ao barbeiro para aparar seus cabelos e usam a tesoura para cortar suas unhas, que de outra sorte cresceriam indefinidamente como nos ensina a natureza. Bom as Escrituras nos mostram muito claramente que há casos em que uma pessoa não é nazir por escolha própria, mas por escolha do Eterno e mesmo por voto de seus pais. Nessa situação  jamais raspará o cabelo ou a barba.  O caso de Shinshon é um exemplo típico. Antes de seu nascimento foi comunicado à sua mãe:

 

“Porque tu conceberás e terás um filho, sobre cuja cabeça não passará navalha, porquanto o menino será nazir  de Elohim  desde o ventre de sua mãe; e ele começará a livrar a Israel da mão dos filistim.” Shofetim/Jz 13:5. 

 

Ora sabemos que a proteção e o cuidado de Elohim sobre o Juiz de Israel permaneceu enquanto ele fiel a seu voto cumpriu esta ordenança que voluntariamente tanto pode ser cumprida por homens como por mulheres como já vimos acima.

 

Com relação à vigência do voto de nazir no período pós-Yeshua e sua prática pelos seguidores do nazareno está mais que comprovada nas Escrituras. Quando Shaul foi acusado de estar ensinando judeus a não circuncidarem seus filhos e a apostatarem da Torah de Moshe Yakov pediu que ele provasse o contrário, isso é, que ele mesmo andava guardando a Torah e que se mantinha firmemente apegado ao Beit há Mikdesh e a seus rituais.

 

“Faze, pois, isto que te dizemos: Temos quatro homens que fizeram voto. Toma estes contigo, e santifica-te com eles, e faze por eles os gastos para que rapem a cabeça, e todos ficarão sabendo que nada há daquilo de que foram informados acerca de ti, mas que também tu mesmo andas guardando a lei.” Atos 21:23-24.

 

         A questão da relação dos discípulos com o Templo e para com os rituais ordenados pela Torah, e que tão pouco é estudada pelos cristãos será abordada noutro capítulo. Sobre o voto de nazir temos ainda o testemunho de que o próprio Shaul tinha “rapado a cabeça em Cencréia, porque tinha voto.” (Atos 18) Isso depõe contra a insinuação de que tais leis não vigoraram após a partida de Maschiach e indica a liberdade de cumprir esse voto mesmo fora da cidade santa pelo menos parcialmente.

 

         É bom considerar que embora não seja pecado nem o homem deixar seu cabelo crescer sob o voto de nazir e nem a mulher raspá-lo em cumprimento desse voto isso nem sempre é conveniente. Vivemos a influência cultural segundo a qual os cabelos longos da jovem são tomados como exemplo de beleza e estética perfeita bem como os cabelos longos de um homem são vistos como rejeitáveis e faltos de estética.

 

Por causa disso, é claro, se uma mulher por razões ligadas à sua fé pessoal decidir fazer o voto, naturalmente deve cobrir sua cabeça com um véu até que eles tornem a crescer, mesmo que se trate de uma virgem, solteira, divorciada ou viúva, pois se na cultura masai é honroso uma jovem de cabelos raspados em muitos casos a cabeleira da mulher, independentemente de seu comprimento é sempre motivo de orgulho e sua ausência um duro golpe na autoestima.

 

Shaul reconhecia a pressão desses conceitos, todavia, consciente que sua mensagem viria a ter um alcance universal, ele recordou que essas coisas não deviam se constituir num contencioso. Se havia um ponto em que ele não ousava ir além de uma recomendação era esse, afinal de contas, sabia pela Torah que o homem tanto pode deixar crescer livremente a sua cabeleira ao fazer o voto de nazir como também que a mulher poderia cortá-la ao final do voto. Por essa razão ele diz que a natureza ensina que para a mulher ter cabeleira farta lhe é uma glória. Ou seja ela está satisfeita e feliz em ter abundantes cabelos.

 

 “Não vos ensina a própria natureza que se o homem tiver cabelo comprido, é para ele uma desonra; mas se a mulher tiver o cabelo comprido, é para ela uma glória? Pois a cabeleira lhe foi dada em lugar de véu. Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus.” 1 Coríntios 11:14-16.

 

Um exemplo notável da influencia cultural da cabeleira sobre a autoestima de uma mulher pode ser visto quando uma paciente de câncer precisa se submeter à quimioterapia em resultado de que os cabelos cairão. A própria natureza mostra que quando por razões médicas os cabelos caem, por exemplo, quando uma mulher se submete à quimioterapia seu primeiro gesto é comprar um véu ou uma peruca até que a sua  desejável recuperação seja alcançada.

 

É evidente que tratamento médico não é voto. A preservação da vida é sempre a maior das mitzvot e se sobrepõe a todas elas. Uma mulher que num momento de fragilidade emocional se submete a tal tratamento é digna não só de nosso respeito, mas de nosso maior encorajamento. A vida é muito mais valiosa que as considerações estéticas resultantes das diversas culturas.

 

É manifesto também que a pressão psicológica da queda do cabelo será muito mais forte para uma mulher brasileira do que para uma mulher masai que já costumeiramente raspa sua cabeça. Esses fatores nos mostram que quem estabelece que um homem de cabeça raspada é mais bonito que uma mulher sem cabelos são fatores puramente culturais. Uma vez mais é importante recordar que Shaul não está falando de ser pecaminoso a mulher ter cabelos curtos ou mesmo raspados, mas de ser glorioso ou feliz ela ter cabeleira farta.

 

Da mesma forma ele não está dizendo que é pecado o homem ter cabelos longos, mas que lhe é desonroso por que normalmente os homens aparam seus cabelos. Digo normalmente, mas não universalmente. Isso me foi muito claro quando como delegado por Portugal viajei ao Equador a fim de participar das sessões da Conferência Geral da Sociedade Missionária Internacional dos Adventistas do Sétimo Dia Movimento de Reforma.

 

Quando tivemos um dia de lazer em meio às agitadas e longas sessões organizaram um passeio até o Vale de Otavalo. Uma das coisas que mais chamam a atenção em relação a esse povo indígena é o costume de seus homens usarem longa cabeleira orgulhosamente arranjada na forma de tranças. Experimente dizer a um índio otavalo, daqueles que você pode ver em qualquer grande centro urbano do mundo tocando instrumentos nativos ou vendendo roupas típicas que o seu cabelo é desonroso e ficará desapontado.

 

Entre os otavalos o cabelo longo é uma marca de identidade nacional e cortá-lo equivale a trair seu próprio povo. Logo a cultura deste povo demonstra que a honra de um povo bem pode ser a desonra de outro povo.

 

Além de sua proverbial beleza Avshalom o filho de David com Maaca se notabilizou em seu tempo pela sua farta cabeleira exuberante como as tranças dos otavalos.  O Tanach menciona isso dizendo que não havia defeito algum nele, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. O que mostra que no tempo dos profetas não parecia erro algum que um homem cortasse seu cabelo apenas uma vez ao ano e esperasse que ele atingisse 200 siclos ou 1.120 gramas. É bem provável, pela narrativa que Avhslaom renovasse seus votos de nazir a cada ano, embora isso não esteja claro nas Escrituras que dizem apenas que ele cortava seu cabelo anualmente:

“Não havia em todo o Israel homem tão admirável pela sua beleza como Absalão; desde a planta do pé até o alto da cabeça não havia nele defeito algum. E, quando ele cortava o cabelo, o que costumava fazer no fim de cada ano, porquanto lhe pesava muito, o peso do cabelo era de duzentos siclos, segundo o peso real.” Shmuel Beit/ 2Sm 14:25-26.

 

Infelizmente, porém, Avshalom se rebelou contra o seu pai, e ao fugir na última batalha, sua cabeça se prendeu a um enorme carvalho. Até hoje muitos acreditam que sua enorme cabeleira se tornou uma armadilha na qual foi morto pel general Yoab para grande tristeza e consternação de David, que sempre o amou, mesmo quando seu filho conspirava para o destituir e matar. Como o Maschiach que amou Israel tão incondicionalmente a ponto de rogar pelo perdão do Pai em favor de seu mui amado povo, Davi chorava pelo carvalho que aprisionou seu filho entregando-o às mãos de Yoab.

 

Foi assim, preso por uma enorme cabeleira que pintor e artista plástico alemão Albert Weisgerber (1878–1915) nascido nos Flandres Franceses representou os momentos finais do filho de David em seu quadro Absalom: Preso enquanto sua montaria fugia em disparada. Nesse sentido a cultura dos otavalos em nada chocaria a cultura hebraica dos dias de David há Melech.

 

A diferença entre a cultura dos otavalos e a cultura israelita dos tempos da Torah é que enquanto entre os otavalos todos os homens usam cabelo comprido entre os israelitas esse hábito era reservado aos nazirim.

 

Ora, além de Shinshon temos outro renomado profeta e amado líder de Israel, Shmuel, dedicado a Elohim como nazir desde o seu nascimento e por cuja cabeça a navalha jamais passou.

 

Seria necessária proverbial ignorância das Torah e dos escritos dos profetas para supor que um homem está desonrando a Elohim se optar por usar cabelos longos. Se tal ideia mesquinha for entretecida não haveria outra conclusão senão a de que Shmuel viveu em constante desonra perante o Criador.

 

Quem poderia aturar semelhante disparate? Ora o Mesmo Shaul que diz que é desonroso o varão ter cabelo comprido raspou o seu cabelo em Cencréia o que só pode ser feito depois dele crescer como diz a Torah. E não há dúvida alguma sobre o fato de que também raspou a cabeça dos quatro jovens que fizeram o voto de deixar crescer livremente sua cabeleira para então oferecê-lo ao Eterno.  Este mesmo enviado declarou acreditar em tudo o que está escrito na Torah e nos profetas.

 

“Mas confesso-te isto: que, seguindo o caminho a que eles chamam seita, assim sirvo ao Elohim de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na Torah e nos profetas.” Maasei Shalichim/At 24:14.

 

Se é assim, é claro que acreditava no voto de nazir, que ele mesmo chegou a fazer, no crescimento temporário do cabelo seja do homem ou da mulher e na raspagem do mesmo como oferta a Adonay.  Além disso, é evidente que Shaul não está definindo o comprimento do cabelo. Comunidade cristãs bem intencionadas mas ignorantes do fato de que as Escrituras são um conjunto harmonioso tem intentado tornar o uso do cabelo comprido para a mulher e do cabelo curto para o homem um mandamento. O que eles não conseguem se aperceber é da subjetividade de tal preceito. Bem, vamos supor que a mulher usar cabelo comprido seja mais do que uma honra, que seja um mandamento como alguns grupos cristãos imaginam. Suponhamos também que por outro lado o homem usar cabelo curto também seja um mandamento.

 

Nosso primeiro problema ao criar esses dois “mandamentos” seria definir o que é cabelo crescido e o que é cabelo curto num mundo multicultural e multirracial. Essa questão nos levaria a um terreno completamente subjetivo onde o que valeria seria a interpretação de cada um. Algumas pessoas de cor clara, especialmente os ruivos raramente desenvolvem uma grande cabeleira. Contudo, entre os povos negros da África a situação é muito pior, especialmente entre as mulheres das tribos que não tem acesso aos produtos desenvolvidos pela cosmética moderna.

 

Comecemos pelos povos brancos do norte da Europa. Para uma menina escandinava um cabelo que lhe chega aos ombros pode em muitos casos ser um cabelo longo cujo crescimento atingiu o limite e se suas pontas não forem aparadas ele virá a perder vitalidade deixando de servir ao seu principal objetivo que é a gloria da mulher.  Estamos falando, portanto de uma longa cabeleira, apesar de seus fios não ultrapassarem os 25 centímetros. E quando dizemos longa, queremos dizer isso mesmo.

 

Na diversidade desse mundo multicolorido semeado de raças criadas pelo Eterno temos que pensar também na jovem masai das savanas africanas. Ela pode ter problemas gerados pelas dificuldades de higienizar o cabelo em regiões sem água a ponto de que  o corte de um cabelo que cresce como uma lã seja uma questão de saúde.

 

Bem, agora imagine que a Igreja Pentecostal Deus e Amor, que também proíbe o corte ou o aparar de cabelo por parte das mulheres chegue à Tanzânia e faça discípulos entre os masai. Qual seria o conceito de cabelos compridos a ser estabelecido em relação a uma mulher masai? Cinco, dez ou 15 centímetros? E como lidar com o fato de que esse cabelo não cai sobre os ombros como o de uma mulher branca ou de uma mulher oriental, mas cresce para cima e para os lados?

 

Tome uma jovem mãe do povo masai cujos cabelos a menos que sejam alongados por meios químicos e manuais não passa de alguns poucos centímetros e que por mais que cresça jamais terá 10 centímetros, e se o tiver se assemelhará a uma lã nada tendo a ver com a menos que a isso seja levado por meios artificiais. Para uma masai 10 centímetros de cabelo são um volume enorme com o qual poucas mulheres podem sequer sonhar. Isso nos leva de volta ao subjetivismo que representa estabelecer uma regra com relação ao comprimento do cabelo de uma mulher. Como pode o cabelo de uma masai com 10 centímetros crescendo para cima ser um cabelo longo e o de uma mulher ocidental com 10 centímetros crescendo em direção aos ombros ser um cabelo curto?

 

Claro que não faria sentido algum excluir da comunhão uma mulher que reduz seu cabelo a dez centímetros e incluir outra cujo cabelo crescido não chega a esse volume. Tal conceito só pode provir de intérpretes ocidentais que não vem as escrituras como um todo e o direito que elas conferem à mulher de fazer seus votos, inclusive o de nazir que envolve raspar o cabelo. No entanto, não recomendamos aos homens que andem com cabelos longos ou que as mulheres raspem suas cabeças por simples vaidade ou modismo. As circunstâncias bíblicas para que ambos pareçam diferentes dos demais já estão definidas, requerem a existência de um neder ou voto.

 

Naturalmente uma mulher casada, ou noiva, mesmo que faça um voto que modificará profundamente sua apresentação pública não está obrigada a cumprir se com ele não concordar seu pai, seu noivo quando estiver prometida em casamento ou o seu esposo. Evidentemente a Torah diz que o pai, o noivo ou o esposo só a podem impedir de cumprir seu voto no momento em que o ouvirem. Se eles se calarem no momento que o escutarem, são dali em diante responsáveis se decidirem interrompê-lo. Ela estando submissa ao desejo deles está livre de culpa, mas eles tomarão sobre si a responsabilidade.

 

“Também quando uma mulher, na sua mocidade, estando ainda na casa de seu pai, fizer voto ao Senhor, e com obrigação se ligar, e seu pai souber do seu voto e da obrigação com que se ligou, e se calar para com ela, então todos os seus votos serão válidos, e toda a obrigação com que se ligou será válida.  Mas se seu pai lho vedar no dia em que o souber, todos os seus votos e as suas obrigações, com que se tiver ligado, deixarão de ser válidos; e YHWH lhe perdoará, porquanto seu pai lhos vedou. Se ela se casar enquanto ainda estiverem sobre ela os seus votos ou o dito irrefletido dos seus lábios, com que se tiver obrigado, e seu marido o souber e se calar para com ela no dia em que o souber, os votos dela serão válidos; e as obrigações com que se ligou serão válidas. Mas se seu marido lho vedar no dia em que o souber, anulará o voto que estiver sobre ela, como também o dito irrefletido dos seus lábios, com que se tiver obrigado; e YHWH lhe perdoará.  No tocante ao voto de uma viúva ou de uma repudiada, tudo com que se obrigar ser-lhe-á válido. Se ela, porém, fez voto na casa de seu marido, ou se obrigou com juramento, e seu marido o soube e se calou para com ela, não lho vedando, todos os seus votos serão válidos; e toda a obrigação com que se ligou será válida. Se, porém, seu marido de todo lhos anulou no dia em que os soube, deixará de ser válido tudo quanto saiu dos lábios dela, quer no tocante aos seus votos, quer no tocante àquilo a que se obrigou; seu marido lhos anulou; e YHWH lhe perdoará. Todo voto, e todo juramento de obrigação, que ela tiver feito para afligir a alma, seu marido pode confirmá-lo, ou pode anulá-lo. Se, porém, seu marido, de dia em dia, se calar inteiramente para com ela, confirma todos os votos e todas as obrigações que estiverem sobre ela; ele lhos confirmou, porquanto se calou para com ela no dia em que os soube.  Mas se de todo lhos anular depois de os ter sabido, ele levará sobre si a iniqüidade dela. Esses são os estatutos que o Senhor ordenou a Moisés, entre o marido e sua mulher, entre o pai e sua filha, na sua mocidade, em casa de seu pai.” Bamdbar/Nm 30:2-16.

 

A razão é que o marido ou mesmo o noivo acostumado a ver sua esposa com cabelos mais curtos pode não gostar de ver seu cabelo crescer indefinidamente enquanto ela se prepara para cumprir o voto. Além disso o homem acostumado a ver sua mulher com cabelo crescido pode não gostar nem um pouco de a ver de cabeça raspada.

 

Retornando, porém ao assunto do voto de nazir deve-se considerar que no presente estágio, com o santuário em ruínas, a aplicação desse voto é discutível num ponto, faltaria o espaço correto para o cumprimento da parte final do voto. No entanto, ninguém pode ser juiz de ninguém. Uma mulher de 35 anos, casada a 15 e que deseja ardentemente ser mãe, pode com o consentimento deste fazer um voto que lhe pareça difícil de cumprir, e que tenha a aparência de um verdadeiro sacrifício, como o raspar dos seus cabelos, coisa estranha para uma mulher. Seria altamente injusto julgarmos tal atitude.  

 

Aliás, homens que raspam a barba jamais deveriam se sentir livres para criticar as mulheres que aparam seus cabelos. A Bíblia, embora não proíba que o homem raspe a barba, salvo raríssimas exceções, está cheia de referências a seu uso por parte dos sacerdotes, dos reis e dos profetas. Isso está mais que claro num dos mais conhecidos salmos, o que fala da unidade dos crentes que é comparada aos fios da barba de Aharon o Kohen há Gadol fortemente unidos pelo azeite que os untou.

 

“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desceu sobre a barba, a barba de Aharon, que desceu sobre a gola das suas vestes; como o orvalho de Hermon, que desce sobre os montes de Tzion; porque ali YHWH ordenou a bênção, a vida para sempre.” Tehilim/Sl 133.

 

Trata-se é claro de um salmo que enaltece o uso da barba, ainda que nesse caso refira somente ao Sumo Sacerdote. Talvez por isso seja tão comum ver no bairro judaico Mea Shearim de Yerushalaim homens com largas barbas. Logo, se existe um mandamento tolo é a proibição do uso da barba estabelecido entre nossos irmãos da Igreja Pentecostal Deus é Amor do Missionário David Miranda (1936-), e que segundo o censo do IBGE tinha 744.830  membros no ano 2000.

 

Esta proibição é, pois um mandamento do Pastor David, e não do Pastor de Israel. A Bíblia nem sequer insinua tal proibição. A Torah indica claramente que o uso da barba era corrente entre os filhos de Israel havendo inclusive um mandamento para que em caso de luto por um morto da família não cortassem o cabelo em redondo, não danificassem as extremidades das suas barbas tornando-as desiguais e nem fizessem lacerações ou tatuagens na sua carne.

 

Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem desfigurareis os cantos da vossa barba. Não fareis lacerações na vossa carne pelos mortos; nem no vosso corpo imprimireis qualquer marca. Eu sou YHWH.” Vaykrá/Lv 19:27-28.

 

As Escrituras mostram pelo contrário, que os servos de David usavam barba, e que quando metade de suas barbas foram cortadas por Salum, o rei dos amonit, estes foram licenciados de suas funções até que metade raspada crescesse e eles eliminassem a vergonha pela qual haviam passado, que para piorar o caso incluiu ainda o corte de suas roupas até as nádegas. 

“Depois disto morreu o rei dos amonitas, e seu filho Hanum reinou em seu lugar. Então disse David: usarei de benevolência para com Hanum, filho de Nahás, como seu pai usou de benevolência para comigo. David, pois, enviou os seus servos para o consolar acerca de seu pai; e foram os servos de Davi à terra dos amonitas. Então disseram os príncipes dos amonitas a seu senhor, Hanum: Pensas, porventura, que foi para honrar teu pai que David te enviou consoladores? Não te enviou antes os seus servos para reconhecerem esta cidade e para a espiarem, a fim de transtorná-la? Pelo que Hanum tomou os servos de David, rapou-lhes metade da barba, cortou-lhes metade dos vestidos, até as nádegas, e os despediu. Quando isso foi dito a David, enviou ele mensageiros a encontrá-los, porque aqueles homens estavam sobremaneira envergonhados; e mandou dizer-lhes: Deixai-vos estar em Yerichó, até que vos torne a crescer a barba, e então voltai.” Shmuel Beit/2Sm 10:1-5.

 

A proibição do uso da barba por parte da Igreja Pentecostal Deus é Amor, seguida tão de perto por mais de 300 mil de seus membros do sexo masculino como se fosse um mandamento vindo diretamente dos céus enquanto outros tão claros mandamentos são considerados sem valor choca pela sua própria natureza. Como podem os crentes que orgulhosamente erguem suas bíblias a cada culto dar mais valor À “doutrina” do que à Palavra?

 

Creio que a resposta a isso ainda ocupará nossas atenções por muito tempo. Na verdade não existe doutrina além daquela que está exposta nas Escrituras.