Seria a Septuaginta uma Obra Confiável?

 

Rosh Baruch Ben Avraham

 

Se a discussão sobre a origem da palavra Deus é procedente a situação com relação ao nome Iesous não é diferente, por mais que alguns insistam que ele foi criado, antes de Roma, e antes da Era cristã por 70 sábios judeus em Alexandria lá por volta do ano 320 e ainda nos dias de Alexandre. O argumento nesse caso seria a septuaginta. Dedicarei algum espaço a isso dada a aparente força que tal argumento tem no debate em favor do nome Iesous como uma forma de demonstrar que ele não foi o resultado nem de conspiração gentílica e nem de erro ou inocência na hora de traduzir.

 

De acordo com essa visão, a palavra Iesous como substituta de Yeshua na língua grega teria surgido justamente entre judeus cultos, alguns dizem que eram sacerdotes, que viram nessa palavra a mais adequada para transliterar o nome hebraico de Yeshua Bem Num no livro de Ezra, e, portanto adequada também a Yeshua Ben Yosef.

 

Hoje, vários eruditos cristãos discordam que alguma vez sábios judeus tenham produzido a famosa septuaginta. Citarei aqui o artigo de um cristão protestante sobre o assunto se a septuaginta pode ser usada para corrigir ou modificar texto massorético hebraico.

 

“Primeiramente, não, porque ela não é o inspirado e preservado Texto das Escrituras e sua historia e caráter são questionáveis.
Segundo, ela não deve ser usada porque é inadequada como tradução.  Jack Moorman observa: “..O Pentateuco é geralmente bem feito, mas às vezes parafraseia antropomorfismos ofensivos aos Judeus Alexandrinos, desrespeita coerência em termos técnicos e religiosos, e mostra sua impaciência com as descrições repetitivas e técnicas em Êxodo, por erros, abreviações e omissões por atacado.  Poucos livros comparativamente alcançam o padrão do Pentateuco; a maioria é de qualidade medíocre, alguns são muito pobres.  Isaías como uma tradução é má; Ester, Jó, Provérbios são paráfrases livres.  A versão LXX original de Jó ficou mais curta do que a do Hebraico; foram acrescentadas subsequentemente interpretações de Teodósio.  Provérbios contém matéria que não está no texto Hebraico, e sentimentos hebraicos são livremente alterados para agradar o ponto de vista Grego.  A tradução de Daniel foi tão parafraseada que foi substituída, talvez no primeiro século d.C., por uma tradução posterior e a LXX original só é encontrada agora em dois MSS e na Siríaca.  Um dos tradutores de Jeremias às vezes traduzia as palavras Hebraicas com palavras Gregas, que tinham um som semelhante, mas um sentido totalmente diferente.” (Moorman, Forever Settled).  Dr. Donald Waite concluiu: “Pode ser visto claramente… que a Septuaginta é incorreta, inadequada e deficiente como tradução.  Tentar reconstruir o Texto Hebraico (como muitos com conexão às versões modernas estão procurando a fazer) a partir de uma tradução tão relapsa e inaceitável seria como tentar reconstruir o Texto Grego do Novo Testamento a partir da Bíblia Viva de Ken Taylor!!”  (Waite, A Defesa da Bíblia King James).” (
QUE TAL A SEPTUAGINTA (LXX)?, David Cloud, http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-Traducoes/QueTalSeptuaginta-LXX-DCloud.htm)

 

David Cloud acrescenta ainda:

 

Não há evidência manuscrita do Velho Testamento em Grego com data anterior a Cristo. Quando muito, existe um fragmento de uma pequena porção da Lei. O mais antigo dos manuscritos existentes da tradução do Velho Testamento em Grego data a 200 anos depois de Cristo.  Uma possível exceção é o Papiro Ryland (No. 458), que tem algumas porções de Deuteronômio 23-28.

 

É possível que este fragmento date de 150 a.C., mas não é certo.  Assim, a evidência manuscrita atual, na melhor hipótese, é inconcludente.  O melhor que podemos assumir da evidência manuscrita existente é que possivelmente houvesse uma tradução da Lei em Grego, antes do tempo de Cristo.

 

A história de que um grupo de eruditos traduziu o Velho Testamento em Grego, em 250 a 150 a.C., tem a natureza apenas de uma lenda.  A carta de Aristeas é duvidosa ao máximo, contendo declarações cuja falsidade é imediatamente visível.  “A carta, afirmando ter ser escrita por um certo Aristeas a seu irmão Philocrates, no reino de Ptolomeu Philadelphus (285-246 a.c.), relata como Philadelphus, persuadido por seu bibliotecário a adquirir uma tradução das Escrituras Hebraicas para sua biblioteca real, apelou ao sumo sacerdote em Jerusalém, o qual despachou setenta e dois anciões (seis de cada uma das doze tribos) para Alexandria, com uma cópia oficial da Lei. 

 

Lá, durante setenta e dois dias, eles fizeram uma tradução, que foi lida à comunidade Judaica, com grande aplauso, e depois apresentada ao rei. A partir do número dos tradutores ela ficou conhecida (embora não exatamente) como a Septuaginta” (Moorman).  “Suas reivindicações à autenticidade foram demolidas por Dr. Hody, há dois séculos (De bibliorum textibus originalibus, Oxon., 1705).  Claramente o escritor não é Grego, mas um judeu, cujo alvo é glorificar sua raça e disseminar informação sobre os seus livros sagrados” (Internacional Standard Bible Encyclopedia).  Desse modo, o nome Septuaginta está baseado numa fábula.  Por essa razão ele é também chamado o Texto Egípcio. (QUE TAL A SEPTUAGINTA (LXX)?, David Cloud, http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-Traducoes/QueTalSeptuaginta-LXX-DCloud.htm)

 

De fato a septuaginta está muito mais para lenda do que para fato.  O Testemunho de Flávio Josefo de que o Rei Ptolomeu do Egito ordenou a 72 sábios que traduzissem as Escrituras está longe de apoiar a septuaginta. Ele fala de um cuidadoso trabalho feito por 7 sábios, que juntos revisaram a tradução.

 

“Três dias depois, Demétrio levou-os por uma estrada longa sete estádios, pela ponte que une a ilha a terra firme, a uma casa situada à beira-mar, do lado norte, afastada de qualquer barulho, para que nada pudesse perturbá-los em seu trabalho, o qual exigia muita atenção e cuidado, ...  Eles o fizeram com toda a dedicação e constância, trabalhando assiduamente para que a tradução fosse exatíssima. ...            Empregaram apenas setenta e dois dias para traduzir toda a Torah. Terminada a obra, Demétrio reuniu todos os judeus e leu-lhes a tradução na presença dos setenta e dois intérpretes. Eles a aprovaram, elogiaram muito Demétrio por haver imaginado uma coisa tão proveitosa para eles e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacerdote, o mais idoso dos intérpretes e os magistrados constituídos para governo do povo pediram em seguida que nada mais se viesse a mudar naquela obra, que fora concluída com tão raro êxito. Essa proposta foi aprovada, dando a esse ato força de lei, porém com a condição de que antes seria permitido a cada um examinar a tradução, para ver se nada havia a acrescentar ou a suprimir e a fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais se tivesse de voltar a ele.” História dos Hebreus de Flavio Josefo.

 

Bem, está mais que claro que Josefo se refere à Torah e não ao Tanach. Teria sido essa Torah produzida pelos tais sábios sido introduzida na septuaginta?

A resposta é um não absoluto. Ora, um trabalho perfeito, cuidadosamente revisado traria como resultado precisão. E precisão é tudo o que a septuaginta não tem. Tudo leva a crer que tal obra, se realmente produzida se perdeu na poeira do tempo assim que os judeus se refiram da influência helenista Abunda em erros e lhe faltam centenas de versos e orações do Tanach. O Talmud confirma na sua coleção de lendas que realmente houve a tal empreitada dos 72 sábios, mas diz que eles traduziram apenas partes da Torah, e partes saltadas para que ele não conhecesse toda a verdade dada a Israel. Dessa maneira os sábios teriam atuado para que o Rei ficasse confundido e jamais soubesse a palavra de Adonay.

 

"R. Judá disse: "Quando a nossos professores foi pedido que traduzissem para o grego, permitiram apenas um rolo da Torah.” Isso foi por conta do incidente relacionado com o rei Ptolomeu, tal como foi ensinado: ". Relata-se que o rei Ptolomeu reuniu setenta e dois anciãos e os colocou em setenta e dois quartos [separados], sem dizer por que ele os reuniu, e entrou em cada um deles e disse-lhe: Traduzam para mim a Torá de Moisés, seu mestre. D'us então atuou em cada um deles e todos eles conceberam a mesma ideia e escreveram para ele: D-us criou no início. Vou fazer o homem à nossa imagem e semelhança. E terminou no sexto dia. E descansou no sétimo dia. Homem e mulher os criou.  Vem, deixe-me descer e confundir suas línguas. E Sara riu entre seus parentes....” Talmud Megilah 9

 

O Talmud segue relatando mais alguns desses “saltos”. A diferença entre as lendas talmúdicas que falam de uma Torah produzida em fragmentos e a pretensão de que alguma vez 72 sábios judeus traduziram um Tanach completo em grego baseado no texto hebraico é mais que evidente. A prova disso é que a  septuaginta com suas centenas adições, subtrações e erros se desaprova a si mesma.

 

Além disso, não nem mesmo comprovação histórica da existência de tal empreitada como a tradução completa de uma Bíblia para o grego. Diversos críticos protestantes tem posto isso e juízo e tem afirmado que não são os textos do Novo Testamento grego que se basearam na Septuaginta, um documento jamais citado pelos sábios judeus.

Pelo contrário sendo a própria septuaginta uma tradução pobre ela baseou as ocorrências do Tanach na Brit Chadashá no texto grego da mesma, talvez para buscar uma harmonia nos textos. Isso liquida a questão quanto a suposta autoridade da palavra Iesous e um sem número de outros nomes  de origem helênica usados no NT Grego. 

 

Não se pode provar que Yeshua Ben Yehotsadak ou mesmo Yeshua Ben Nun foram alguma vez denominados como Iesous por judeus. David Cloud, que não é nenhum defensor do nome sagrado, é um cristão para quem essa luz ainda não brilhou, termina com um argumento de fazer pensar a qualquer um. Ainda que a septuaginta fosse autentica, não foi inspirada, e portanto, não seria elemento de prova:

 

“Dr. D. A. Waite oferece um comentário importante e definitivo sobre este assunto: “Mas suponhamos que você rejeite este pensamento. Só porque há uma semelhança nas palavras e em alguns casos talvez siga o VT Grego mais exatamente, qual é a prova de que o VT Grego seja, de alguma forma, superior ao Texto Massorético? Claro que não! Nem para esta passagem, nem para todo o VT Grego.  Deus não inspirou as palavras gregas do VT, mas somente as palavras em Hebraico! Essa distinção é muito importante e devemos ter cautela nesse assunto de tradução do VT.” (QUE TAL A SEPTUAGINTA (LXX)?, David Cloud, http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-Traducoes/QueTalSeptuaginta-LXX-DCloud.htm)