O Exílio e o Retorno das Tribos Perdidas na Literatura Rabínica (Parte II)

 

De Shlomo ben Ytzchak no Século XII a Moses ben Isaac Edrehi no Séc XIX

Rosh Baruch Ben Avraham

 

 

Nahmanides não foi o único dos grandes rabinos a comentar o assunto das tribos perdidas. Outros se somaram nessa questão, procurando inclusive ir além, esforçar-se por identificar o lugar onde estão as ditas tribos. Esta é afinal a pergunta que não quer calar. Assim começamos por Rashí (Rabbi Shlomo ben Ytzchak (1040-1105) de Champagne, França que declara:

 

"O primeiro exílio dos filhos de Israel em que foram levadas cativas as dez tribos à terra dos cananeus em direção a Serapta os exegetas dizem que Serapta significa o Reino chamado de frança na língua ordinária.”  

Abraham Iben Ezra, (1089-1164) nascido em Tudela, Navarra, na Espanha vai além, ele não só identifica Sarepta com a França, mas também a Alemanha com os cananeus. Será por isso que a maioria do povo alemão fechou os olhos para o extermínio dos judeus?

“Dos canaeus: Temos escutado de grandes homens da terra de Allemagne [Alemanha], são os cananeos que fugiram diante dos filhos de ISarel, quando chegaram a terra. Assim que também, Sarepta significa França.”

Num testemunho mais recente temos Don Isaac ben Yehudah Abarbanel, (1437-1508), nascido em Lisboa, Portugal e falecido em Veneza na Itália e de quem Senor Abravanel (1930 -) mais conhecido como Silvio Santos, empresário e apresentador de TV é descendente direto. O grande rabino, estadista e filósofo judeu, trabalhou para a Casa Real Portuguesa onde foi ministro das finanças do Rei Alfonso V (1432-1481) até ser arrolado como participante de um complot liderado pelo Duque de Bragança, Dom Fernando II (1430-1483) degolado em Évora. O Tal complô nunca foi definitivamente provado, mas Abarbanel avisado a tempo deixou rapidamente as terras portuguesas e a enorme fortuna que acumulara, apesar de ter gasto quantias consideráveis comprando a liberdade de seus irmãos judeus que haviam sido feitos escravos após a campanha portuguesa contra Arzila no Marrocos.

 

Após sua  fuga em 1483, o Rabino Don Isaac ben Yehudah Abarbanel vai para Toledo na Espanha onde durante seis meses se dedica a comentar a Bíblia, mas pouco depois já está a serviço das finanças eespanholas administrando as receitas para o exército de Isabel I (1451-1504), mais conhecida como Isabel de Castela que acabaria por decretar a expulsão dos judeus da Espanha. Negando-se a converter ao catolicismo o ilustre Rabino deixou a Espanha indo para Nápoles, e finalmente para Veneza na Itália onde morreu aos 71 anos de idade.

 

Entre seus comentários escritos na Espanha, um deles nos interessa sobremaneira, o Comentário a Abdias, onde fala que Sefarad, região mencionada na bíblica e de onde deriva termo sefardita que refere um dos ramos mais importantes grupos étnicos do judaísmo é a França e a Inglaterra.

 

"Sarepta é França e também os exilados de Sefarad na Espanha e não te deixes enganar unicamente porque Sarepta (França) é mencionada e a Anglaterre  (Inglaterra) não é citada, por que para ali também foram os exilados, por que essa ilha é considerada como uma parte de Sarepta (França), ainda que mais tarde se separou de Sarepta (França), e se converteu num reino de domínio próprio. E assim pode ser, a intenção também destes filhos de Israel que abandonaram completamente a Religião devido a os problemas e perseguições, e seguem na Fraçna e na Espanha por milhares e por dezenas de milhares em grandes comunidades. Eles voltarão e implorarão ao Eterno seu Elohim.” (Don Isaac ben Yehudah Abarbanel sobre Abdías).

 

Este testemunho de que Inglaterra e a França são parte de Israel juntamente com a Espanha e que Sefarad inclui grande parte de toda a Europa Ocidental talvez seja a única resposta para um dos mais enigmáticos estudos da atualidade a comparação entre os resultados das mais avançadas pesquisas científicas baseadas no exame de DNA das populações ibéricas tanto portuguesas como espanholas e a historiografia até agora elaborada. Estas pesquisas dão conta que 20% dos espanhóis são portadores do DNA sefardita quando era de se esperar não mais de 1%.

 

Uma vez que a população espanhola em 1500 era de 7 milhões, e que presume-se que entre 50 e 70 mil judeus se converteram para poder permanecer na Espanha e que a população atual do país é de 47 milhões, era de se esperar que a ciência comprovasse a história e que até 470 mil espanhóis, reservadas as mesmas proporções de a cinco séculos, portassem o DNA sefardita. No entanto pesquisa conduzida pela Universidade de Leicester, uma das mais prestigiosas do Reino Unido (21,6 mil alunos) junto com a Universidad Pompeu Fabra de Barcelona na Catalunha dão conta que 19,8% dos espanhóis tem DNA sefardita, isso além dos 10,6% que possuem DNA proveniente da África Subsaariana onde floresceram três reinos jduaicos.

O resultados dessa pesquisa surpreenderam o mundo ibéro-americano pois revelaram que o povo israelita aportou seu DNA numa proporção muito maior do que jamais se imaginou e fornecem dados para uma longa discussão acerca de como uma civilização que parecia ter sido eliminada da Espanha pode influir tanto em sua formação genética.

 

O estudo trouxe resultados que confrontam a ciência e a história tal como a conhecemos e sugere intrigantes perguntas: Como os 70 mil judeus (1%) que permaneceram no país após a conversão em 1.492 legaram a marca do seu DNA paterno a 9,31 milhões de espanhóis da população atual? Como a população com DNA judaico cresceu 133 vezes (de 70 mil para 9,3 milhões) enquanto os demais espanhóis cresceram 5,4 vezes passando de 6,93 milhões para 37,7 milhões e o conjunto da população da Espanha cresceu 6,71 vezes passando de 7 para 47 milhões? Como uma massa judaica que nas estimativas mais otimistas chegava a pouco mais de 12% pode depois de ser reduzida a quase nada pela expulsão de Alhambra recuperar sua presença ultrapassando todas as estimativas? Três hipóteses podem ser levantadas.

A primeira é que o Eterno cumprindo sua promessa a Avraham de que sua semente seria multiplicada como o pó da terra assistiu de tal forma as famílias portadoras da zeráh ou semente de Avraham que as fez multiplicar muito mais e dessa forma enquanto os demais espanhóis cresceram 5,4 vezes e a Espanha em conjunto cresceu 6,71 vezes os descendentes de Israel cresceram 133 vezes.

A segunda exposta por críticos da pesquisa é que o DNA considerado judaico provém de outros povos que ocuparam a Espanha além de judeus e mouros (fenícios, árabes, eslavos).

A terceira é que muito antes da chegada dos judeus as tribos perdidas já tinham ido parar à Espanha e que estas perdidas para o judaísmo abraçaram a fé messiânica por que os conduziu de volta à Bíblia e mais tarde pressionados adotaram primeiro o cristianismo ariano (não trinitário) e finalmente o catolicismo que as assimilou, o que explicaria o pequeno percentual dos judeus religiosos em comparação com os judeus étnicos que só viriam a reaparecer no século XXI por amostragem de DNA. Esta última é minha opinião.

Recorde que os Sefaradim são os descendentes de judeus da Península Ibérica que abrange Portugal, Espanha, Gibraltar, Andorra e Pirineus na França. As estimativas mais conservadoras apontam para 370 mil judeus vivendo na Espanha por ocasião do Decreto de Alhambra emitido em 1492 quando os reis católicos Felipe e Isabel decretaram sua expulsão do país sob a ameaça de pena de morte caso ficassem, a menos que se convertessem. Este contingente equivalia a 5,3% da população espanhola na época que era de 7 milhões.

 

Acredita-se que Portugal recebeu 32,43% deles (120 mil), a Turquia 24,32% (90 mil), a Espanha ficou com 18,92% (70 mil) que se converteram para escapar a expulsão, a Holanda recebeu 6,76% (25 mil), o Marrocos recebeu 5,41%  (20 mil), outros 5,41% (20 mil) morreram enquanto enfrentavam as intempéries buscando um porto seguro,  a França acolheu 2,7% (10 mil), a Itália abrigou outros 2,7% (10 mil) e a América foi o destino de 1,35% (5 mil). De acordo com esses dados a população judaica de 370 mil e que equivalia a 5,3% dos espanhóis viu-se reduzida a apenas 70 mil ou exatamente 1% da população do país. No entanto, alguns estudiosos falam que a expulsão fez com que 800 mil judeus deixassem a Espanha. Se estas estimativas forem corretas os judeus presentes no país até a efetivação do Decreto de Alhambra saltariam para 12,43% ou 870 mil já descontados os cerca de 70 mil que se converteram.

 

Ao falar das tribos perdidas na Espanha, considerando que o DNA semítico está presente em 20% dos espanhóis  abre-se o leque para considerarmos a extensão desse povo noutras latitudes já que poucas civilizações influenciaram tanto o mundo como a civilização espanhola. Se alguém pensa que o povo espanhol se confinou à Espanha com seus 47 milhões de habitantes e 40 milhões de espanhóis está redondamente enganado. 

 

A expansão da Espanha, mesmo considerado que era uma potência católica e inimiga do judaísmo, não deixou de ser também uma expansão da massa israelita por outras latitudes se levamos em conta o DNA de 1/5 de seu povo e se considerarmos a hipótese de que nas colônias espanholhas que se estenderam do México ao Chile e do Chile às Filipinas se repetiu o mesmo fenômeno da progressão do DNA compatível com o dos judeus sefarditas.  Hoje mais de 150 milhões de pessoas descendem de espanhóis, inclusive 15 milhões aqui no Brasil, ainda que a presença do DNA sefardita no Brasil proceda principalmente de Portugal, nosso próprio colonizador.

 

Sabe-se que depois da expulsão dos judeus da Espanha em 1492, muitos deles se juntaram aos seus irmãos que viviam em Portugal. Alguns historiadores chegaram a afirmar que a população judaica do país ascendeu então a ¼ dos portugueses. Considerando que então Portugal tinha 1,2 milhão de habitantes é possível imaginar que os judeus portugueses e espanhóis em terras lusitanas somavam 300 mil por volta de 1.500.

 

Tal proporção era considerada até pouco tempo um exagero. Era até 2 anos atrás quando a mesma pesquisa que revelou que 20% dos espanhóis é portador do DNA sefardita mostrou que no sul de Portugal esta proporção chegou a 36%.  O que isso representa para o Brasil, descoberto e colonizado por Portugal, especialmente quando a maioria dos imigrantes  brancos que vieram para o Brasil procedem do sul de Portugal será abordado noutro tema.

 

Mas duma coisa podemos estar certos, o Brasil com seus 192 milhões de habitantes é a extensão maior do sefardismo mundial e há muito mais descendentes de sefarditas no Brasil do que todos os judeus sefarditas reconhecidos no mundo inteiro que são entre 2,5 e 3,5 milhões, um contingente que pode ultrapassar as várias dezenas de milhões de indivíduos. Ora, se apenas o DNA dos 15 milhões de descendentes de espanhóis no Brasil espelhar o que ocorre na Espanha, então 3 milhões de hispano-brasileiros serão israelitas. Se 36% dos 115,5 milhões dos descendentes de portugueses  portarem o  DNA sefardita como ocorre no sul de Portugal 41,5 milhões de luso brasileiros serão israelitas.   Isso faria do Brasil um país como 3 vezes mais judeus do que os que existem no mundo inteiro e com 7,5 vezes mais judeus do que os que vivem em Israel.

 

Isso faria de Silvio Santos, ou melhor de Senor Abravanel não o representante de uma minoria dentre de outra já que apenas 10% dos 96 mil judeus brasileiros são sefarditas, mas o representante do maior grupo étinico do Brasil. Um grupo que subtamente saíria os insignificantes 0,05% para mais de 30%. Depois dessa ponte na qual paramos para olhar as implicações do fato de Sefarad ser a Inglaterra, a França e a Espanha devido à influência que os judeus exerceram em Portugal após a expulsão dos judeu-espanhóis prosseguiremos com a literatura rabínica.

 

Esta literatura recebeu importante acréscimo durante o século XVI especialmente por meio de Menasseh Ben Israel (1604-1657) e cujo nome de nascimento recebido na Ilha da Madeira, uma possessão portuguesa foi Manuel Dias Soeiro. Como tantos outros judeus portugueses seus familiáres foram obrigados a se converter ao cristianismo, batizando-se ainda que pro forma, mediante um decreto de Dom Manuel (1469-1521) do Rei de Portugal, que primeiro ordenou a expulsão dos judeus, e depois, vendo perigar a fazenda real e a influência de Portugal na Europa quando se iniciavam as grandes navegações fechou-lhes os portos de saída.

 

Quando as suspeitas de judaísmo recaíram sobre sua família, Manuem Soeiro chegou à Holanda em 1610 onde o governo protestante não impunha restriuções ao judaísmo empenhado que estava em fazer da Holanda uma grande potência, coisa que conseguiu principalmente com o apóio dos banqueiros judeus. Assim, Manuel frequentou a escola onde foi um aluno notável, casou-se com uma descendente do Grande Rabino Dom Isaac Abravanel, que também foi ancestral de Silvio Santos e foi amigo do grande pintor holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669).

Eloquente, foi a Inglaterra e convenceu a Oliver Cromwell (1599-1658) a abrir a Inglaterra ao retorno dos judeus que haviam sido expulsos em 1290 pelo Rei Eduardo I (1239-1307). Tornou-se famoso por sua obra Miḳṿeh Yiśraʾel que foi publicada em espanhol sob o título que evocava seu próprio nome hebraico, Esperanza de Israel.

 

Nessa obra o grande rabino judeu português discorre sobre sua esperança do retorno das dez tribos, sobre o fato de que elas ainda não haviam retornado, e finalmente sobre sua trajetória que se iniciou ao cruzar o Eufrates e segundo ele findou no Perú, então chamado de Nueva España e em plena América. Essa trajetória teria sido possível depois de terem vencido o Estreito que separa a Groelandia do Canadá de onde foram descendo até povoar uma série de nações ao Sul.

 

 Mostro juntamente, que assim como as dez Tribos foram expulsas de suas terras, por diversas vezes; assim estão por diversas províncias espalhadas; e que estas são a America, Tartaria, China, Média, rio Sabático e Etiópia. Provo que as dez tribos não voltaram ao segundo Templo, E que ainda violam a Leide Moshe, e nossos ritos sagrados. E que final e infalivelmente serão redimidos à patria junto com os de Yehudáh e Binyamin, debaixo de uma sá cabeça o Messias ben David: e como se deve crer, que  este século feliz já se aproxima, por diversas consideraçoes, nas quais menciono muitas histórias dignas de memória, e brevemente várias profecias, com particular atenção e propósito. A excelência deste escrito, e quanto a este trabalho me deve a minha nação, deixo à ponderação dos justos e doutos, aos quais dirijo meus escritos....

 

O primeiro fundamento desta opinião procede do IV livro de Esdras, o qual ainda que seja Apochryfo, citamos como autor antigo. Diz pois ele que as dez Tribos, que Salmanasser levou cativas no tempo do Rei Hoshea (Oseas), transladados para a outra margem do rio Eufrates, decidiram entre si que passassem a outra região remota, onde nunca habitou o gênero humano, para guardar ali melhor sua Lei. E assim entrando por uns lugares estreitos do Eufrates, o Altíssimo Adonai usou com eles de maravilhas, detendo a corrente do rio até que passassen, cuja região, se chama Arsareth: De cujo texto se pode coligir, que parte deles se foi a nova Espanha e ao Perú, povoando estes dos Reinos que até então havian sido desabitados. (Genebrardo, lib, i, Chron, pag, 150)

 

Depois de haver referido a viagem das dez Tribos, que Esdras conta, diz que Arsareth, é a Tartária Maior, e que de aqui foram à Ilha de Groenlândia: por que daquela parte está a America descuberta e sem mar, e das outras banhada pelo mar, e feita quase ilha: e da Groelândia, pelo Estreito de Davis, podiam passar à Terra do Labrador, que é já Terra das Índias, que dista somente 50 léguas, como testifica Frangisco Lopes de Gomara en sua Historia (i.p.fol.7) .

 

No século XVIII, em 1836 o Rabino judeu marroquino Moses ben Isaac Edrehi (1744-1842) escreve An Historical Account of the Ten Tribes Settled Beyond the River Sambatyon in the East (Uma História das Dez Tribos Localizadas além do Rio Sambation no Oriente) e declara que as tribos perdidas estão localizadas nos confins da Europa.

 

Em sua obra em que historia sobre as dez tribos perdidas depois de analisar outros historiadores Moses ben Isaac Edrehi declara acerca da localização das tribos do norte depois de terem abandonado a região que ele chama de Arsareth com base no livro de Ezra, uma obra, que apesar de apócrifa sempre foi considerada com respeito pelos rabinos judeus da Era Medieval e do Período da Renascença:

 

“.. Orteleus, que é grande geógrafo, dando a descrição da Tartária, menciona o reino de Arsareth, onde as Dez Tribos, repousando entre outros habitantes citas, tomou o nome Gauther [godos], porque eles eram muito zelosos da glória de Deus. Em outro lugar, ele encontrou a Naftali, que tiveram seus acampamentos por lá. Ele também descobriu a tribo de Dan, no norte, que tem preservado o seu nome. ... Ele ainda acrescentou, que os restos do antigo Israel eram mais numerosos ali do que em Moscou e na Polônia - a partir do qual se concluiu, que a sua habitação se fixou na Tartária [Cítia] de onde eles passaram por lugares vizinhos ... não é nenhuma maravilha poder encontrar as Dez Tribos dispersas por lá, uma vez que houve grande caminho a percorrer da Assíria, para onde foram transplantadas, tendo apenas a Armênia entre eles.”  Moses ben Isaac Edrehi (1744-1842) Historical Account Of The Ten Tribes, (1836), p. 92

 

Recorde que em hebraico Dez é Atseret, pelo que ao recorrer a citação de Abraham Ortelius (1527-1598), grande cartógrafo e geógrafo flamengo, nascido em Antuérpia na Bélgica e autor do famoso quadro conhecido como Theatrum Orbis Terrarum (Teatro da Urbe Terrena), o rabino Edrehi procura dar à sua obra uma sustentação que vai além da crença espiritual no retorno das tribos perdida. Ele dá como fato sustentado por geógrafos do seu tempo que as dez tribos estabeleceram um reino.

Edrehi recorre ao apócrifo pseudoepigráfico conhecido como II Esdras, que fala da partida das tribos para além do Eufrates, que se abriu para que o ultrapassassem ao sair de Israel e se abrirá de novo ao final para que retornem.  

 

“E enquanto viste que ele reuniu uma outra multidão pacífica a ele; essas são as dez tribos, que foram levados presos para fora da sua terra no tempo do Rei Hoshea, a quem Salmanasar, rei da Assíria levou cativo, e ele levou-os sobre as águas, e assim foram para  outra terra. Mas eles tomaram este conselho entre si, que deixariam a multidão dos gentios, e iriam adiante para um país ainda mais distante onde nunca a humanidade havia habitado, para que eles pudessem lá manter seus estatutos, que nunca haviam mantido em sua própria terra. E entraram no Eufrates por lugares estreitos do rio. Então o Eterno fez para eles um milagre e deteve as águas do rio até que pudessem passar. Este país está à distância de um ano e meio e seu nome é a Arsareth. Eles habitarão ali até os últimos dias e logo quando estiverem de volta o Altíssimo de novo deterá as fontes do rio para que possam passar em paz. Quando tenha destruído a multidão de nações que se uniram contra eles, então defenderá o restante de seu povo. E então lhe mostrará seus grandes sinais.” Ezra Beit/2 Ed 13:39-50.

É bom saber que o livro é considerado canônico pela Igreja da Etiópia, apócrifo pelos protestantes, e fonte de consulta para estudiosos judeus. A datação, nomenclatura e autoria de II Ezra é incerta. Algumas versões latinas o denominam III Esdras, Jerônimo e autores medievais o chamam de IV Esdras, mas em tempos recentes as bíblias em inglês que o incluem o denominaram II Esdras, que é o que faço aqui. Os primeiros dois capítulos são atribuídos por diversos críticos a um crente messiânico já que menciona ao filho de Elohim (2:47-48). Os capítulos XIII e XIV são consideradas judeo-apocaliípticos. Não se preservou nenhuma cópia em hebraico ou grego.

A maioria dos críticos aceita que o livro foi escrito originalmente em hebraico e depois traduzido para grego, latim, armênio, etíope e georgiano. O livro parece ter sido escrito em época de grande aflição, talvez a destruição do II Templo, ou final do primeiro século embora alguns dizem que data do início do terceiro século. Quanto a autoria, pela unidade do texto alguns sustentam que é de um único autor, um crente messiânico que teria recebido visões celestiais é o mais plausível, mas outros atribuem a obra a até cinco autores diferentes.

É interessante notar que bem antes de Nahmanides afirmar que o Rio Sambation é o Rio Khabur, um dos afluentes do Eufrates, o autor do pseudoagiógrafo de Ezra já sugeria que o exílio de Israel se relacionava diretamente com o próprio Eufrates, o rio que Israel cruzou ao partir de sua terra e voltará a cruzar ao retornar para ela dos confins da Europa. A declaração de Moses ben Isaac Edrehi se junta a de Maimonides que teria dito: “Creio que as dez tribos estão em várias partes da Europa.” Mas outros rabinos tratarão de definir o enigmático destino das tribos perdidas.

 

Pode-se citar ainda o erudito judeu convertido ao cristianismo através da Igreja da Inglaterra, o Dr. Moisés Margoliouth (1818-1881) nascido de pais judeus em Sulwaki na Polônia converteu-se a Yeshua aos 19 anos, mas jamais perdeu o vínculo de amor com seu povo, o que incluía não só os judeus, mas também os dispersos do norte, onde ninguém sabia onde estavam. Formado em Teologia em Dublin foi ordenado em 1844 assumindo diversos cargos na Igreja Episcopal.

 

Dois anos depois, em 1846, o erudito judeu messiânico escreveu a sua The History of the Jews in Great Britain (História dos Judeus na Grã Bretanha) a obra em três volumes foi publicado em 1851.(A Obra do . Moisés Margoliouth pode ser consultada on line em Google Books. http://books.google.com/books?id=VcUCAAAAQAAJ&printsec=frontcover&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false)

 

Depois de apresentar diversos dados de prova ele conclui dizendo: ... “Os israelitas devem ter visitado os países ocidentais (da Europa) nos dias de Shlomo.” Mas ele não foi o único judeu a se apaixonar pela tese de que Israel esteve na Grã-Bretanha.

 

O israelismo britânico apaixonaria a outro judeu messiânico, Elieser Basin (1840-1898) um judeu russo nascido em Mogilev na atual Bielo-Rússia e convertido a Yeshua aos 29 anos de idade veio a ler o trabalho de Edward Hine e se tornou um convicto defensor do israelismo britânico. Escreveu várias obras sobre o tema entre elas: “O hebraico moderno, e os cristãos hebreus (1882). Fraternidade Entre Britânicos e Judeus (1884) Dez Tribos Perdidas: Anglo-Israel por um Judeu (1884). Um dedo Pós-ao caminho da Salvação. Uma Exposição dos Livros Bíblicos e Rabínicos (1887). A Páscoa, Celebrada Hoje Pelos Judeus, Comparada com a Celebrada por Cristo e seus Discípulos (1889). A síntese de sua crença sobre o israelismo britânico pode ser dada nestas palavras:

 

“As Escrituras hebraicas apontam para as ilhas britânicas como a casa dos primogênitos nascidos de Elohim (isto é, Efraim, o nome coletivo para as Dez Tribos, Jeremias 31:9) ... É minha convicção de que a Grã-Bretanha é a nação com a qual Elohim tem se identificado do princípio ao fim. Eu, um israelita da Casa de Yehudáh com israelitas da casa de Efraim (A Casa de Israel). Como crentes na fidelidade da manutenção do pacto de Elohim eu o chamo despertar de seu sono.” Elieser Basin 1884, Fraternidade Entre Britânicos e Judeus.

 

Depois da proclamação de Basin, muitos judeus acreditaram de fato que a o povo da Inglaterra e por extensão os anglo-americanos são descendentes de judeus. A tese é comentada na Enciclopédia Judaica.

 

“A identificação dos Sacae, ou citas, com as Dez Tribos ocorre porque eles aparecem na história, ao mesmo tempo, e quase no mesmo local em que os israelitas são transportados por Shalmanesar. Isso é um dos principais sustentáculos da teoria que identifica o povo Inglês, e de fato toda a raça germânica, com as dez tribos "( Enciclopédia Judaica , 1901, vol. 12, p. 250).

 

Não há dúvidas que os judeus tinham noção há vários séculos da presença de seus irmãos por onde eles passavam e a convicção de seu retorno à verdadeira adoração, apesar de haverem abandonado a fé de seus pais.

 

À medida, porém que os ingleses se voltavam cada vez mais para Elohim abandonando a idolatria ancestral herdada da Igreja de Roma e de seu passado pré-cristão parece ter ficado cada vez mais evidente a sua origem. Esta mesma evidência foi sendo fornecida em muitas outras terras onde o evangelho penetrou com inusitada força arrancando a idolatria ou de um culto não dirigido ao Eterno uma imensidão de almas. A questão de como Israel quanto mais atacado e perseguido, e quanto mais vagueia longe de casa mais cresce é nosso próximo capítulo.